domingo, 13 de fevereiro de 2011

Vizinhos


As pessoas de minha família, sobretudo as do lado materno, tendem a ser muito reservadas; com algumas exceções, costumamos nos encerrar em nossa casa ocupando-nos com os assuntos próprios e rotineiros dela. Isso não quer dizer que sejamos egoístas, arrogantes ou soberbos. Não. Apenas fomos educados a cuidar da própria vida e sempre quando possível evitar importunar outrem.
Lembro-me muito bem do dia em que um tio, o irmão caçula de minha mãe, levando-me a uma nova casa de meus pais, aconselhou-me a evitar amizades com os vizinhos. O que alguns podem julgar presunção, julgo como zelo de tio com a sobrinha de 13 anos, proteção a uma jovem cujos sonhos, imaturos e em formação, poderiam ser envenenados por algum vizinho mal intencionado. Já crescida, tal proteção continua, de menor monta, como convém, e baldada, haja vista os transtornos e desilusões por que se passa nessa vida, cuja mais vigilante proteção é incapaz de evitar.
O tempo passou e manteve-se em mim o hábito de reserva. Se me perguntarem hoje o nome de meus vizinhos, sendo dez, acertarei o de um, e acertarei muito. Saio ao trabalho e quando volto no fim do dia encerro-me em casa, ora saindo para regar plantas, ora para botar fora o lixo, momento em que tenho a surpresa de ver e cumprimentar um ou outro sem lhe saber o nome. Meus finais de semana são tão breves que costumo dar conta deles já no fim do domingo.  É sinal de vida atribulada? Talvez. O fato é que não me sinto mal sendo assim, não me sinto solitária e muito menos propensa a desprezar os que se avizinham a mim.  E tanto é verdade isto que digo que alguns dias atrás, quando saía do almoço em casa para ir ao trabalho, fiquei estupefata ao deparar com o apartamento ao lado do meu completamente vazio e aberto, sendo mostrado pelo locatário a um possível morador. Aí residia um casal idoso e muito simpático há um ano e meio se muito. Não sabia muito deles, apenas que talvez não faça nem dois anos que decidiram dividir o teto. Antes disso eu os via esporadicamente, cada qual indo para um andar distinto, no mesmo prédio. Pessoas agradáveis e simpáticas, eles sempre me surpreendiam com trazer-me o jornal antes que eu o buscasse na portaria. Sem falar nas frutas deliciosas de seu sítio com que uma vez ou outra me presenteavam. Vizinhos agradáveis aqueles. Pois bem, o casal de idosos que me presenteava com frutas, com seus cumprimentos quando nos víamos, com sua generosidade em me trazer jornais, com sua presença,  fora embora sem se despedir de mim! É fato que passei vários dias em viagem, o que talvez houvesse impossibilitado um adeus; mas nem um bilhete? Entristeci. Entristecida, senti a dor causada pelo inevitável, pela não-despedida, pela falta de linhas escritas que fossem expressão do carinho que eu sabia sentirem por mim e que eu também sentia por eles, apesar de não nos frequentarmos.
Pensei em coisas que pudessem me confortar, mas nada atingiu esse intento; toda a filosofia existente não me satisfaria naqueles minutos de tristeza quando fui surpreendida com a partida daqueles vizinhos.
Não, não mudei em minhas reservas. E acredito que nesse aspecto difícil será eu ver mudanças; mas, certamente, eu lhes teria escrito um bilhete agradecendo o tempo que passamos juntos; eu lhes teria escrito um bilhete de despedida.