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Jovem defendendo-se do Amor, Bouguereau , 1880 |
Quando nos vimos, não foi a primeira vez que te vi. Tua pele alva, teus cabelos louros, teu rosto anguloso e viril, o corpo firme e másculo, este belo conjunto não passaria despercebido a muitos.
Eu já observara o teu semblante cansado de horas de estudo e de trabalho ininterruptas, das quais desejei ser alento e que, pelo visto, sou.
Eu já vira teus olhos pretos e vívidos descansando na paisagem, absortos, de quando em vez vindo ao encontro dos meus, que se desviavam por temerem a vergonha do desejo flagrado.
Eu já sentira o magnetismo que me impelia a ti quando uma vez roçaste de propósito tua pele na minha revelando o desejo correspondido. Desejo este que prescindia de palavras e que pelos olhos já se revelara (Ah! Bilac! Bem-aventurado o dia em que nasceste, artista supremo!).
Teus olhos falaram e me disseram que era a mim que querias, e que, qual um animal faminto a sentir o cheiro de sangue fresco, tu virias incontido, o olhar ávido e feroz, o passo firme e decidido, fazendo-me fugir assustada.
Mas eu não fugiria sempre, pois tu me farias acreditar nas bênçãos da natureza quando lhe perdoamos a inconstância e lhe concedemos a liberdade de escolha. Tu és meu presente.
A primeira vez que nos vimos, encontramo-nos inteiros, livres e a pleno, consagrando-nos com os mais íntimos momentos de regozijo, graça maior da existência.
