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Quadro de Heitor dos Prazeres |
Reunir-se em festas é uma grande peculiaridade humana. Desde a Antiguidade reverenciam-se crenças com alguma espécie de comemoração, seja com banquetes, seja com músicas, com danças, com fantasias, seja com o que for que simbolize alegria e reconhecimento.
Na Antiguidade Clássica tais festas se davam pelos mais diversos motivos, ora celebrando os vivos (Festas Sotérias), ora venerando os mortos (Festas Parentais), e em prol da maioria dos deuses.
Na Idade Média não foi diferente. Festejar era uma prática constante do homem medieval. Quem é afeito à cultura alemã, por exemplo, conhece as Kirmes, festas medievais alemãs em que se comemorava a construção de uma nova igreja. Hoje tais festas perderam o teor religioso, mas comemorar algo persiste no espírito delas. Nas áreas de colonização alemã, o termo Kerb é o mais usado para designar essas festas que sobreviveram a séculos de mudanças sociais e comportamentais.
Há mais de dois mil anos, na China, um famoso poeta, Qu Yuan, vendo seu povo ser dominado por inimigos decidiu por fim à própria vida jogando-se no rio Mi Luo. O povo chinês viu nisso uma grande prova de patriotismo e decidiu reverenciá-lo. Todos os anos desde então é feita uma festa em que se come pamonha (comumente feita com arroz) e se passeia por um rio com um barco em forma de dragão, eis a Festa do Barco-Dragão (ou Festa da Pamonha). Se fôssemos nos estender, veríamos que cada povo tem um apreço a festejos, que foge a qualquer controle de governos. Isso nos faz lembrar o que acontece atualmente no Irã: sabe-se que a bebida alcoólica é proibida aí desde 1970, ano da revolução islâmica, porém isso não impediu os iranianos de fabricarem sua própria bebida. Consta que há alambiques nos porões de algumas casas iranianas. Ou seja, por mais que imaginemos que o povo iraniano, oprimido, não se divirta, tais alambiques são garantia certa de alguma comemoração.
Entrudo |
Com o correr do tempo, o Brasil não ficou para trás. O Carnaval é exemplo de uma de nossas festas mais populares e também uma das mais antigas. Sinônimo de Entrudo, o carnaval a princípio se desenrolava em perfeita desarmonia. Machado de Assis, em crônica de 1893, relata as peripécias contra cidadãos que, distraídos, recebiam limões de cera (ou limões-de-cheiro) na fuça: “Eram tinas d'água, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam à força um cidadão todo, — chapéu, dignidade e botas. Eram seringas de lata; eram limões de cera.” (A Semana, 1893) Há registros de que D. Pedro I adorava participar dessas comemorações lançando também seu limão-de-cheiro. Mas como toda a ação provoca uma reação, um dia a atriz Estela Sezefredo achou-se no direito de lançar-lhe também um limão-de-cheiro na testa, pelo qual foi imediatamente presa. Intolerâncias à parte, desses burburinhos populares aqui e acolá surgiriam os grandes carnavais. A primeira escola de samba do Rio de Janeiro data de 1928, décadas depois surgiriam o Sambódromo e a Cidade do Samba e seus desfiles apoteóticos.
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| Carnaval antigo |
Engana-se quem pensa que o Carnaval brasileiro dos primórdios restringiu-se ao Rio de Janeiro. Em Vitória, Espírito Santo, tais festejos eram também comuns, com os característicos próprios de uma cidade pacata e provinciana de meados do século XIX. Havia aí, qual no Rio, os embates com limão-de-cheiro, com bisnagas, com lança-perfumes. Eram esperados os desfiles dos abonados com suas fantasias importadas de Paris e os bailes à fantasia, dos quais surigiriam os primeiros blocos, entre eles o Está Cruel, denominação curiosa originária de um ditado popular. Havia ainda uma espécie de sincretismo musical, em que se dançavam, junto com sambas e marchinhas, congo e escambau, precursor da lambada, ritmo surgido da década de 1970 no Pará. O carnaval em Vitória iniciava-se na Praça Oito e ia até a Vila Rubim, comandado por João Capuchinho, serrano e grande incentivador da folia popular. Em meio à crise da Revolução de 1929 romperam nessa cidade os grupos de batucada, dos quais algumas décadas depois se originariam as escolas de samba capixabas, sendo a primeira a Unidos da Piedade, organizada por Rominho da Fonte Grande. A União das Batucadas, espécie de ordenação desses grupos, chegou a reunir mais de 10 grupos de batucada: Centenário, Santa Lúcia, Mocidade da Praia, São Torquato entre outros. Os instrumentos usados eram os de corda e os de percussão, com destaque para o cavaquinho e para o banjo, a animar a folia no Espírito Santo há no mínimo 70 anos atrás. Tal história nos é relatada pelo folclorista Hermógenes Lima Fonseca, com detalhes pitorescos (pelos quais, por exemplo, ficamos sabendo da numerosa família Nascimento, moradores da Capixaba e grandes festeiros). Seu texto O Carnaval Capixaba nos informa tudo (embora tenha pecado um pouco na enumeração das datas) de que precisamos saber sobre como o capixaba se assemelha aos indivíduos de outros povos no apreço às festas populares.
Diante de tão diferentes relatos – e poderiam ser muito mais diferentes! – é curioso observar como as críticas às festas populares são cada vez mais acirradas. É certo que a turba costuma ser barulhenta, porém velho adágio popular existe não à toa: os incomodados que se mudem. E muitos de nós incomodados nos recolhemos nessas datas festivas. Porém alegar que o apreço por jogos, o apreço por teatros, por animais estranhos, por lutas massacrantes, são frutos de um intuito que visa desviar a atenção de um povo para o que é mais importante, tanto economicamente quanto politicamente, é desconhecer sua índole mais genuína. Imaginar que se abusa dessa índole talvez seja mais plausível - e esse abuso deve ser vivamente combatido e criticado. Lamentável ainda é supor que os indivíduos de um povo não se divertem espontaneamente ou que talvez negassem teatros, jogos, farsas, espetáculos os mais bizarros, quanto mais críticos fossem ou mais intelectualizados. Doce ilusão. Seja traçado um histórico das festas populares e se verá que elas atraem o ser humano como a luz atrai os insetos à medida que é reluzente. É natural essa atração. Pessoas não são insetos, nem as festas são luminosas dias a fio. Um dia elas voltarão para casa e sofrerão os efeitos do espírito em euforia, mas até que isso aconteça, estejam no ofício ou no lugar em que estiverem, tais indivíduos aproveitarão as festividades a farta.

