quarta-feira, 16 de março de 2011

O Japão de Hokusai e de outros luminares

A Grande Onda de Kanagawa, Hokusai, 1830
O Japão viu-se assolado pelas contingências inevitáveis do destino. Num curto espaço de tempo, esse país sofreu as agruras de um terremoto, de um maremoto e de problemas oriundos  do uso de energia nuclear.  A catástrofe foi tamanha: ferrovias, portos, linhas de transmissão de energia e sistemas de abastecimento de água destruídos, comunidades inteiras aniquiladas, quilômetros de costa devastados. A reconstrução será lenta e exigirá do povo japonês uma resiliência fenomenal para superar por anos o que a natureza destruiu em horas.  
Ao olhar o Japão hoje, vêm-nos imediatamente à cabeça os versos do grande poeta português:

No mar tanta tormenta e tanto dano
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida
Que não se arme e indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
(Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas)

Como forma talvez de sublimar a desgraça e por ter a fortuna de estar distante de tão desolado quadro, ocorre-nos lembrar alguns grandes artistas que eternizaram com suas obras as belezas desse país. Paul Johnson, um dos grandes historiadores vivos, afirma em seu livro Os Criadores (Elsevier, 2006) que  “Todos os indivíduos criativos baseiam-se no trabalho de seus antecessores. Ninguém cria no vácuo. Todas as civilizações evoluem de sociedades anteriores.”  Ao pensar nos grandes criadores japoneses não há como passar despercebido pelo profícuo e talentoso Hokusai e por suas pinturas da paisagem japonesa. Filho adotivo de um fabricante de espelho, pobre e começando a desenhar desde criança, Hokusai, além da flora e da fauna, retratou a vida japonesa de meados do séc. XIX com invejável habilidade. Nasceu pintor e morreu pintor e não consta que quisesse fazer outra coisa. Aos 83 anos, julgava que só chegaria ao estado superior de arte quando completasse 100 anos e que quando tivesse 110 cada traço seu teria vida. O fato é que seu apuro não precisou de tantos anos para se mostrar, veio logo e, se não chegou à perfeição, chegou a algo bem próximo a ela.
Perfeccionista e excêntrico, o que ele considerava algo libertador, ousou ir além de seus contemporâneos pintando nuvens (até então só se pintavam névoas) e depois misturando-as às névoas, chegando a uma síntese que agradaria a europeus, a americanos e aos próprios japoneses. As pontes eram sua paixão. Inúmeras delas foram pintadas, nos mais diversos ângulos. A imagem poética de seus desenhos fez com que eles servissem também de ilustração a muitos livros de poesia.
Hoje, séc. XXI, vemos a obra de Hokusai ser buscada por pessoas que talvez nunca lhe tenham ouvido o nome. Os Mangá (“desenhos aleatórios”) são frutos de um projeto de Hokusai de ensinar desenho a japoneses de classe média e de classe média baixa. Os desenhos instrutivos eram desenvolvidos por seus alunos e posteriormente organizados em volumes (15 ao todo). Segundo Paul Johnson, os Mangá constituem uma das maiores compilações artísticas já produzidas – ao todo mais de quarenta mil imagens, cuja variedade de tópicos é considerada única na arte, muitas das instruções aí contidas são úteis até hoje: desenhos de aves aquáticas, de íris (sua flor predileta), de bois, de cavalos, de lenhadores, de chuvas (sua especialidade, talvez porque muito comum nesse país), de pessoas, serviram – e ainda servem- de instrução aos mais diversos aprendizes.  Hokusai também produziu desenhos que serviam ao seu puro deleite. As gravuras eróticas, shunga, foram produzidas por ele ao longo da vida; uma pescadora de pérolas sendo satisfeita por dois polvos é a mais famosa por seu poder imaginativo. As melhores estão reunidas no livro Nami Chiduri.  E foi assim, trabalhando, que Hokusai encerrou seus dias aos 99 anos.

A pintura foi uma grande paixão do cineasta Akira Kurosawa e o acompanhou durante toda a sua trajetória no cinema. Consta que ele pintava quadros como "storyboards" de seus filmes. Sonhos (Yume) é um grande exemplo dessa paixão. Baseado em sonhos que o cineasta teve, o colorido e a fotografia desse filme são de uma beleza impressionante, típica de belos quadros. Após muitos desafios enfrentados - o  suicídio de um irmão ainda jovem; uma estafa mental, que fez com que ele também tentasse se suicidar inúmeras vezes – Kurosawa aos 80 anos realizou a sua obra preferida, o filme Ran, cujo roteiro foi inspirado na peça Rei Lear, de Shakespeare, morreu oito anos depois deixando uma extensa filmografia, que o fez obter o reconhecimento do público e da crítica. É certo que há inúmeros cineastas japoneses talentosos, em 2008, os 100 anos da imigração japonesa foram comemorados com uma mostra de cinema em que tais talentos foram mostrados; mas, além de talentoso, o mérito de Kurosawa está em ter sido responsável por fazer o cinema japonês ser conhecido no mundo, além disso, boa parte de seus trabalhos chegaram antes ao Brasil que à Europa ou aos Estados Unidos.

O Brasil abriga uma grande colônia japonesa, no bairro Liberdade, em São Paulo.  Dada a familiaridade que se tem com essa cultura, são poucos os brasileiros que não conhecem coisas tais como judô, origami, sushi, sashimi, yakissoba, ikebana, bonsai, gueixas, as quais inspiram marmanjos aqui e mundo afora, e os famosos poemas Haikai.  Tudo isso e muito mais ilustram o quão esse povo é rico e o quão é lamentável ver a desolação por que passa o Japão atualmente. Que os japoneses façam jus ao provérbio popular de seu país:  Cai sete vezes e levanta oito (Nana Korobi, Ya oki) e que o Japão se reconstrua o mais breve possível.