segunda-feira, 28 de março de 2011

Alexandre Herculano

Em 28 de março de 1810 nasceu um dos maiores escritores da língua portuguesa,  o grande Alexandre Herculano.
Grande não só porque teve uma produção literária extensa e profícua, mas porque soube como poucos mostrar numa escrita primorosa as nuanças que levam o homem a tecer seus dias e sua história. Grande não apenas porque galgou o maior patamar a que se pode chegar um escritor, o de ser considerado o maior em sua língua, mas porque soube descrever os tipos mais rasteiros e vulgares encontrados nos maiores vultos sociais e também nos menores, com primor e argúcia. Alexandre Herculano foi grande porque descreveu o homem tal qual é e sempre será, permeado de conflitos e a se equilibrar numa luta inglória entre a aparência e a essência. É o que se vê em “Lendas e Narrativas”, “Eurico”, “O Bobo”, “A Harpa do Crente” e “O Monge de Cister”.
 O leitor diante de tal descrição pode se enfadar e encerrar a leitura com a alegação de que esse escritor está perdido no tempo e que sua leitura não interessa a quem se acostumou às facilidades da escrita moderna. Santa ignorância. Herculano não só não está perdido no tempo, como sua leitura tem muito a contribuir com a capacidade de compreender, de pensar, de avaliar os seres e os fatos que, embora passados, são tão atuais quanto o jornal desta manhã (bela passagem do inesquecível The Ladykillers, de Ethan e Joel Cohen). 
Ao lembrar a aversão aos escritores antigos, aproveito para fazer uma pequena digressão e narrar dois fatos ocorridos em meus tempos de faculdade. Andava eu pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), numa fria tarde de agosto, com um belo exemplar de Fausto, de Goethe, traduzido por Castilho, quando encontrei um professor de Literatura do curso de Letras. Não contendo minha felicidade mostrei-lhe o presente que acabara de ganhar:
- Veja, é um Fausto, traduzido por Castilho, recebi há pouco de presente.
Qual não foi a minha surpresa quando obtive como resposta um riso sarcástico e o seguinte dizer:
-Você ainda lê isso?! Meu Deus!
Não tive outra alternativa a não ser dizer “Sim, leio”, e me resignar à insignificância de ler Fausto, de Goethe, traduzido por Castilho. Confesso que me arrependi de não perguntar se a surpresa do professor se aplicava ao escrito de Goethe ou à tradução de Castilho. Talvez fosse melhor não saber.
Num outro dia, estava eu conversando com uma amiga, por MSN, quando quis-lhe mostrar um poema que havia acabado de ler. Era uma composição de Almeida Garrett   e versava sobre alguém incapaz de corresponder a um amor. Achando curioso tal mote quis mostrá-lo, ao que fui impedida com o seguinte argumento:
 -Não, não me mostre esses autores difíceis!
Isso não me causaria surpresa se a pessoa em questão não fosse uma escritora, bem afamada na época por sinal. Pelo visto, temos professores e escritores que põem os escritores antigos (considerados obsoletos ou difíceis) na parte mais desprezada de sua estante, quando os possuem nela. Não há, pois, como não entender os jovens hoje estarem tão distantes deles.
É confortante saber que podemos nos consolar com Adler  que diz em sua bela obra Como Ler Livros  que “nos tempos modernos, sob a influência do estilo tipicamente jornalístico, a maioria dos autores assumiu a tendência de escrever parágrafos curtos e fáceis de ler”. Ou seja, diante do estilo jornalístico, só nos resta compreender (ainda que lamentando) o  porquê de Alexandre Herculano, de Garrett e de Castilho estarem legados às traças.  Isso não deixa de ser lastimável, porque se houvesse um pouco de paciência e método (e Adler está aí para auxiliar a quem precisa) se usufruiria o que há de melhor na elaboração e na expressão de idéias, tanto quanto se usufrui a leitura de bons escritores dos tempos modernos.
Voltemos a Herculano.
Considerado o primeiro autor a cultivar o romance histórico em Portugal, Alexandre Herculano o fez com uma primazia tal que revelou seu estudo prévio e escrupuloso dos fatos, misturando-os a personagens fictícios que conduzem magistralmente o fio principal de sua narrativa. É o que, por exemplo, ocorre em O Bobo, romance que narra a luta entre o infante D. Afonso Henriques e sua mãe, D. Teresa:

Se D. Teresa se mostrara na viuvez digna politicamente do marido, o filho era digno de ambos. O tempo provou que os excedia em perseverança e audácia. A natureza dera-lhe as formas atléticas e o valor indomável de um desses heróis dos antigos romances de cavalaria, cujos dotes extraordinários os trovadores exageravam mais ou menos nas lendas e poemas, mas que eram copiados da existência real. Tal fora o Cid. Os amores adúlteros de D. Teresa com o Conde de Trava, Fernando Peres, fizeram com que cedo se manifestassem as aspirações do moço Afonso Henriques. (O Bobo, pag.8)

O melhor desse livro não está nas conturbadas relações entre mãe, filho e todos os demais que participam de sua intimidade, mas no bobo ou truão, personagem que deixa a todos atônitos quando aparece e que dá título à obra. A mestria de Herculano revela-se soberba ao falar desse  personagem singular:

O leitor que não conhecesse por dentro e por fora, como se usa dizer, a vida da Idade Média, riria da pequice com que atribuímos valor político ao bobo do Conde de Portugal. Pois o caso não é de rir. Naquela época o cargo de truão correspondia até certo ponto ao dos censores da República Romana. Muitas paixões, sobre as quais a civilização estampou o ferrete de ignóbeis, ainda não eram hipócritas: porque a hipocrisia foi o magnífico resultado que a civilização tirou de sua sentença. Os ódios e as vinganças eram lealmente ferozes, a dissolução sincera, a tirania sem miséria. No século XVI Filipe II envenenava seu filho nas trevas de um calabouço: no princípio do XIII Sancho I de Portugal arrancando os olhos aos clérigos de Coimbra, que recusavam celebrar os ofícios divinos nas igrejas interditas, chamava para testemunhas daquele feito todos os parentes das vítimas. Filipe era um parricida polidamente covarde; Sancho um selvagem atrozmente vingativo. Entre os dous príncipes há quatro séculos nas distâncias do tempo e o infinito nas distâncias morais. [...] O novo bufão do Conde Henrique, ao começar os graves estudos e as dificultosas experiências de que carecia para preencher dignamente o seu cargo, teve a feliz inspiração de associar algumas doutrinas cavaleirosas com os mais prosaicos elementos da chocarrice fidalga.  Na torrente dos desvarios, quando mais violento derramava em roda de si a lava ardente dos ditos insultuosos e cruéis, nunca dos lábios lhe saiu palavra que fosse despedaçar a alma de uma dama. Dom Bibas [o truão] debaixo da cruz da sua espada de lenho sentia bater um coração de português, português da boa raça dos godos. Suponde o mais humilde dos homens; suponde a mais nobre, a mais altiva mulher; que esse homem a salpique do lodo da injúria, e será tão infame e covarde como o poderoso entre os poderosos, que insultasse a donzela inocente e desvalida. E por quê? Porque um tal feito sai fora das raias da humanidade: não o praticam homens: não o julgam as leis: julga-o a consciência como um impossível moral, como um ato bestial e monstruoso. Para aquele que usa de semelhante feridade, nunca luziu, nunca luzirá no mundo um raio de poesia? E há aí alguém a quem não sorrisse uma vez, ao menos, esta filha do Céu? Dom Bibas não pensava nisso; mas sentia-o, tinha-o no sangue das veias. Daqui a sua influência; daqui o gasalhado, o carinho, o amor, com que donas e donzelas tratavam o pobre truão. Quando contra este indivíduo, fraco e ao mesmo tempo terror e flagelo dos fortes, se alevantava alguma grande cólera, alguma vingança implacável, ele tinha um asilo seguro onde iam quebrar em vão todas as tempestades: era o bastidor, à roda do qual as nobres damas daqueles tempos matavam as horas tediosas do dia, bordando na reforçada tela com fios de mil cores histórias de guerras ou folguedos de paz. Ali Dom Bibas agachado, enovelado, sumido, desafiava o seu furioso agressor, que muitas vezes saía malferido daquele combate desigual, em que o bobo se cobria das armas mais temidas de um nobre cavaleiro, a proteção das formosas.  (O Bobo, pág. 21)

Quinta onde Herculando passou seus últimos dias.
É com esse estilo vigoroso e com uma linguagem considerada pura, que Herculano nos vai descrevendo a rotina bastarda de nobres, clero, burgueses, pessoas do povo, pessoas de uma época considerada passada, pelos anos, e presente, pela índole humana que jamais mudará enquanto a Terra for o que é. O que mais importa na leitura de seus textos não é, pois, conhecer o que já é de todos sabido, mas a forma como isso se manifesta. O bom escritor sobressai-se pelo primor de seu texto, revelado no colorido de sua linguagem, na unidade de suas passagens, na força de seus argumentos, no respeito à língua que o originou. Herculano, além de nos presentear com todos esses atributos, ainda nos deixa de legado um conteúdo histórico enredado de modo que nos faz recordar grandes obras cinematográficas. Ler Herculano é como estar diante de um grande filme romanesco. Suas descrições são roteiros seguros a quem se guia pela imaginação; elas nos fornecem os elementos necessários à visualização de imagens tão claras que nos vemos parte delas. Assim, a grandeza maior de seus escritos está em revelar ao espírito humano a construção que o permite alçar voos cada vez maiores. Voo que de certo alçou o espírito do próprio Herculano, quando num mês de setembro disse as últimas palavras de sua vida: 
- Abram as janelas. Quero ver as árvores.
  

Referência
HERCULANO, Alexandre. O bobo. Ed. W.M.Jackson.       



quarta-feira, 16 de março de 2011

O Japão de Hokusai e de outros luminares

A Grande Onda de Kanagawa, Hokusai, 1830
O Japão viu-se assolado pelas contingências inevitáveis do destino. Num curto espaço de tempo, esse país sofreu as agruras de um terremoto, de um maremoto e de problemas oriundos  do uso de energia nuclear.  A catástrofe foi tamanha: ferrovias, portos, linhas de transmissão de energia e sistemas de abastecimento de água destruídos, comunidades inteiras aniquiladas, quilômetros de costa devastados. A reconstrução será lenta e exigirá do povo japonês uma resiliência fenomenal para superar por anos o que a natureza destruiu em horas.  
Ao olhar o Japão hoje, vêm-nos imediatamente à cabeça os versos do grande poeta português:

No mar tanta tormenta e tanto dano
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida
Que não se arme e indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
(Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas)

Como forma talvez de sublimar a desgraça e por ter a fortuna de estar distante de tão desolado quadro, ocorre-nos lembrar alguns grandes artistas que eternizaram com suas obras as belezas desse país. Paul Johnson, um dos grandes historiadores vivos, afirma em seu livro Os Criadores (Elsevier, 2006) que  “Todos os indivíduos criativos baseiam-se no trabalho de seus antecessores. Ninguém cria no vácuo. Todas as civilizações evoluem de sociedades anteriores.”  Ao pensar nos grandes criadores japoneses não há como passar despercebido pelo profícuo e talentoso Hokusai e por suas pinturas da paisagem japonesa. Filho adotivo de um fabricante de espelho, pobre e começando a desenhar desde criança, Hokusai, além da flora e da fauna, retratou a vida japonesa de meados do séc. XIX com invejável habilidade. Nasceu pintor e morreu pintor e não consta que quisesse fazer outra coisa. Aos 83 anos, julgava que só chegaria ao estado superior de arte quando completasse 100 anos e que quando tivesse 110 cada traço seu teria vida. O fato é que seu apuro não precisou de tantos anos para se mostrar, veio logo e, se não chegou à perfeição, chegou a algo bem próximo a ela.
Perfeccionista e excêntrico, o que ele considerava algo libertador, ousou ir além de seus contemporâneos pintando nuvens (até então só se pintavam névoas) e depois misturando-as às névoas, chegando a uma síntese que agradaria a europeus, a americanos e aos próprios japoneses. As pontes eram sua paixão. Inúmeras delas foram pintadas, nos mais diversos ângulos. A imagem poética de seus desenhos fez com que eles servissem também de ilustração a muitos livros de poesia.
Hoje, séc. XXI, vemos a obra de Hokusai ser buscada por pessoas que talvez nunca lhe tenham ouvido o nome. Os Mangá (“desenhos aleatórios”) são frutos de um projeto de Hokusai de ensinar desenho a japoneses de classe média e de classe média baixa. Os desenhos instrutivos eram desenvolvidos por seus alunos e posteriormente organizados em volumes (15 ao todo). Segundo Paul Johnson, os Mangá constituem uma das maiores compilações artísticas já produzidas – ao todo mais de quarenta mil imagens, cuja variedade de tópicos é considerada única na arte, muitas das instruções aí contidas são úteis até hoje: desenhos de aves aquáticas, de íris (sua flor predileta), de bois, de cavalos, de lenhadores, de chuvas (sua especialidade, talvez porque muito comum nesse país), de pessoas, serviram – e ainda servem- de instrução aos mais diversos aprendizes.  Hokusai também produziu desenhos que serviam ao seu puro deleite. As gravuras eróticas, shunga, foram produzidas por ele ao longo da vida; uma pescadora de pérolas sendo satisfeita por dois polvos é a mais famosa por seu poder imaginativo. As melhores estão reunidas no livro Nami Chiduri.  E foi assim, trabalhando, que Hokusai encerrou seus dias aos 99 anos.

A pintura foi uma grande paixão do cineasta Akira Kurosawa e o acompanhou durante toda a sua trajetória no cinema. Consta que ele pintava quadros como "storyboards" de seus filmes. Sonhos (Yume) é um grande exemplo dessa paixão. Baseado em sonhos que o cineasta teve, o colorido e a fotografia desse filme são de uma beleza impressionante, típica de belos quadros. Após muitos desafios enfrentados - o  suicídio de um irmão ainda jovem; uma estafa mental, que fez com que ele também tentasse se suicidar inúmeras vezes – Kurosawa aos 80 anos realizou a sua obra preferida, o filme Ran, cujo roteiro foi inspirado na peça Rei Lear, de Shakespeare, morreu oito anos depois deixando uma extensa filmografia, que o fez obter o reconhecimento do público e da crítica. É certo que há inúmeros cineastas japoneses talentosos, em 2008, os 100 anos da imigração japonesa foram comemorados com uma mostra de cinema em que tais talentos foram mostrados; mas, além de talentoso, o mérito de Kurosawa está em ter sido responsável por fazer o cinema japonês ser conhecido no mundo, além disso, boa parte de seus trabalhos chegaram antes ao Brasil que à Europa ou aos Estados Unidos.

O Brasil abriga uma grande colônia japonesa, no bairro Liberdade, em São Paulo.  Dada a familiaridade que se tem com essa cultura, são poucos os brasileiros que não conhecem coisas tais como judô, origami, sushi, sashimi, yakissoba, ikebana, bonsai, gueixas, as quais inspiram marmanjos aqui e mundo afora, e os famosos poemas Haikai.  Tudo isso e muito mais ilustram o quão esse povo é rico e o quão é lamentável ver a desolação por que passa o Japão atualmente. Que os japoneses façam jus ao provérbio popular de seu país:  Cai sete vezes e levanta oito (Nana Korobi, Ya oki) e que o Japão se reconstrua o mais breve possível. 

terça-feira, 8 de março de 2011

A farta


Quadro de Heitor dos Prazeres
Reunir-se em festas é uma grande peculiaridade humana. Desde a Antiguidade reverenciam-se crenças com alguma espécie de comemoração, seja com  banquetes, seja com músicas, com danças, com fantasias, seja com o que for que simbolize alegria e reconhecimento.
Na Antiguidade Clássica tais festas se davam pelos mais diversos motivos, ora celebrando os vivos (Festas Sotérias), ora venerando os mortos (Festas Parentais), e em prol da maioria dos deuses.
Na Idade Média não foi diferente. Festejar era uma prática constante do homem medieval. Quem é afeito à cultura alemã, por exemplo, conhece as Kirmes, festas medievais alemãs em que se comemorava a construção de uma nova igreja. Hoje tais festas perderam o teor religioso, mas comemorar algo persiste no espírito delas. Nas áreas de colonização alemã, o termo Kerb é o mais usado para designar essas festas que sobreviveram a séculos de mudanças sociais e comportamentais.
Há mais de dois mil anos, na China, um famoso poeta, Qu Yuan,  vendo seu povo ser dominado por inimigos decidiu por fim à própria vida jogando-se no rio Mi Luo. O povo chinês viu nisso uma grande prova de patriotismo e decidiu reverenciá-lo. Todos os anos desde então é feita uma festa em que se come pamonha (comumente feita com arroz) e se passeia por um rio com um barco em forma de dragão, eis a Festa do Barco-Dragão (ou Festa da Pamonha). Se fôssemos nos estender, veríamos que cada povo tem um apreço a festejos,  que foge a qualquer controle de governos. Isso nos faz lembrar o que acontece atualmente no Irã: sabe-se que a bebida alcoólica é proibida aí desde 1970, ano da revolução islâmica, porém isso não impediu os iranianos de fabricarem sua própria bebida. Consta que há alambiques nos porões de algumas casas iranianas. Ou seja, por mais que imaginemos que o povo iraniano, oprimido, não se divirta, tais alambiques são garantia certa de alguma comemoração.  

Entrudo
Com o correr do tempo, o Brasil não ficou para trás. O Carnaval é exemplo de uma de nossas festas mais populares e também uma das mais antigas. Sinônimo de Entrudo, o carnaval a princípio se desenrolava em perfeita desarmonia. Machado de Assis, em crônica de 1893, relata as peripécias contra cidadãos que, distraídos, recebiam limões de cera (ou limões-de-cheiro) na fuça: “Eram tinas d'água, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam à força um cidadão todo, — chapéu, dignidade e botas. Eram seringas de lata; eram limões de cera.” (A Semana, 1893)      Há registros de que D. Pedro I adorava participar dessas comemorações lançando também seu limão-de-cheiro. Mas como toda a ação provoca uma reação, um dia a atriz Estela Sezefredo achou-se no direito de lançar-lhe também um limão-de-cheiro na testa, pelo qual foi imediatamente presa.  Intolerâncias à parte, desses burburinhos populares aqui e acolá surgiriam os grandes carnavais. A primeira escola de samba do Rio de Janeiro data de 1928, décadas depois surgiriam o Sambódromo e a Cidade do Samba e seus desfiles apoteóticos.
Carnaval antigo

Engana-se quem pensa que o Carnaval brasileiro dos primórdios restringiu-se ao Rio de Janeiro. Em Vitória, Espírito Santo, tais festejos eram também comuns, com os característicos próprios de uma  cidade pacata e provinciana de meados do século XIX. Havia aí, qual no Rio, os embates com limão-de-cheiro, com bisnagas, com  lança-perfumes. Eram esperados os desfiles dos abonados com suas fantasias importadas de Paris e os bailes à fantasia, dos quais surigiriam os primeiros blocos, entre eles o Está Cruel, denominação curiosa originária de um ditado popular. Havia ainda uma espécie de sincretismo musical, em que se dançavam,  junto com sambas e marchinhas, congo e escambau, precursor da lambada, ritmo surgido da década de 1970 no Pará. O carnaval em Vitória iniciava-se na Praça Oito e ia até a Vila Rubim, comandado por João Capuchinho, serrano e grande incentivador da folia popular. Em meio à crise da Revolução de 1929 romperam nessa cidade os grupos de batucada, dos quais algumas décadas depois se originariam as escolas de samba capixabas, sendo a primeira a Unidos da Piedade, organizada por Rominho da Fonte Grande.  A União das Batucadas, espécie de ordenação desses grupos, chegou a reunir mais de 10 grupos de batucada: Centenário, Santa Lúcia, Mocidade da Praia, São Torquato entre outros. Os instrumentos usados eram os de corda e os de percussão, com destaque para o cavaquinho e para o banjo, a animar a folia no Espírito Santo há  no mínimo 70 anos atrás. Tal história nos é relatada pelo folclorista Hermógenes Lima Fonseca, com detalhes pitorescos (pelos quais, por exemplo, ficamos sabendo da numerosa família Nascimento, moradores da Capixaba e grandes festeiros). Seu texto O Carnaval Capixaba nos informa tudo (embora tenha pecado um pouco na enumeração das datas) de que precisamos saber sobre como o capixaba se assemelha aos indivíduos de outros povos no apreço às festas populares.
Diante de tão diferentes relatos – e poderiam ser muito mais diferentes! – é curioso observar como as críticas às festas populares são cada vez  mais acirradas. É certo que a turba costuma ser barulhenta, porém velho adágio popular existe não à toa: os incomodados que se mudem. E muitos de nós incomodados nos recolhemos nessas datas festivas. Porém alegar que o apreço por jogos, o apreço por teatros, por animais estranhos, por lutas massacrantes, são frutos de um intuito que visa desviar a atenção de  um povo para o que é mais importante, tanto economicamente quanto politicamente, é desconhecer sua índole mais genuína. Imaginar que se abusa dessa índole talvez seja mais plausível - e esse abuso  deve ser vivamente combatido e criticado.   Lamentável  ainda é supor que os indivíduos de um povo não se divertem espontaneamente ou que talvez negassem teatros,  jogos, farsas, espetáculos os mais bizarros, quanto mais críticos fossem ou mais intelectualizados.  Doce ilusão. Seja traçado um histórico das festas populares e se verá que elas atraem o ser humano como a luz atrai os insetos à medida que é reluzente.  É natural essa atração. Pessoas não são insetos, nem as festas são luminosas dias a fio.  Um dia elas voltarão para casa e  sofrerão os efeitos do espírito em euforia, mas até que isso aconteça, estejam no ofício ou no lugar em que estiverem, tais indivíduos aproveitarão as festividades a farta.