quinta-feira, 16 de junho de 2011

De profetas...

Os entendidos das coisas do mundo sabem que há poucos nele que não sejam permeados de certa espiritualidade, de certo pendor para coisas intangíveis. A fé existe e de modo tão vário que a explicação de sua existência descamba por vezes num amontoado de razões sem razão. O que dizer, pois, dos que se sentem agraciados com o divino poder de prever o futuro? Diante destes resta-nos o silêncio pio das almas crentes, posto que céticas.
O senhor sicrano da esquina é uma dessas almas. A ele não importa dizer que o futuro não existe, se vê alguém a prevê-lo, rende-lhe devotos pensamentos. Saber do futuro interessa-lhe mais que as preocupações comezinhas do presente, é nele que ele se encontra.
Um dia, chegando a casa no horário habitual, dá-lhe na veneta assistir à televisão. Na novela que passava, havia um profeta. Sua atenção logo foi despertada e os olhos se fixaram na figura do ator a interpretar aquele a quem tantos temem. Que grande ator. O senhor sicrano da esquina passa a acompanhar aquele folhetim televisivo. Como as novelas se inovam, pensava, deram de pôr agora até profetas! O personagem é Miguezim, como é chamado pelo povo do sertão onde mora, suas profecias ocorrem com a ânsia de salvar das agruras do sertão esse mesmo povo. Puxa! que homem bom! que homem sabido!
Cuidado, senhor, não se apegue às aparências. A consciência do senhor sicrano da esquina por vezes o puxava à razão. Emocionar-se é algo valoroso, mas deixar-se levar por piegas emoções pode afrouxar o coração e aí não há quem socorra. Há uma heroína por quem o profeta vela, cujo nome é nome de flor, bela como a coroa que cinge nobres cabeças. O profeta Miguezim venera Açucena, também chamada Aurora, isso toca o coração do senhor diante da tela.  Há um outro profeta. Dois? Sim, dois. Seu nome é Amadeus, é astrólogo e reside num reino distante, provavelmente rodeado de todos os livros e apetrechos que o auxiliam na inspiração de suas profecias. Dois profetas num mesmo folhetim. Isso poderia nos causar certa estranheza, mas no senhor diante da tela causou tal emoção que ele decidiu estudar a vida dos profetas existentes no mundo. Tal empreitada era difícil, posto que requeria tempo e de tempo ele dispunha pouco. Mas a curiosidade fê-lo vencer os obstáculos. Vamos, senhor sicrano da esquina, há um grande caminho pela frente. 
 Comecemos pela Antiguidade Clássica. Como imaginar que num tempo tão longínquo já havia quem se pusesse a prever o futuro? Oh, não, não me venham com ensinamentos; o senhor sicrano da esquina não se ocupava deles, era natural que ficasse supreso ao saber que em épocas tão remotas existiu a Sibila de Cumas,  profetiza que vendeu ao Rei Tarquínio os Livros Sibilinos, muito influentes em Roma. Saber que tal profetiza foi citada por grandes autores clássicos (Virgílio, Ovídio e  Petrônio) ou que em um destes livros havia um prenúncio da vinda de Cristo ao mundo (segundo o Imperador Constantino) não lhe chamou a atenção, mas uma outra coisa sim, e ela diz respeito ao fato de que esse livro não chegou aos tempos modernos porque foi destruído num incêndio. Ah, seres humanos, como a desgraça os atrai... Prossigamos. Dado esse pequeno exemplo da importância de profecias (quantas serviram de guia a reis?) não se vá pensar que a vida dos profetas tenha sido sempre confortável ou fácil. E está aí algo que muito chamou a atenção do senhor sicrano da esquina: muitos profetas durante sua jornada no mundo foram vaiados, enforcados, queimados, tentados até já não lhes restarem forças para levar adiante seu divino dom. Amós foi um deles. Profeta em Israel, no Séc. VIII – VII a. C, teve os dentes arrancados porque, dizia-se, falava demais. Irra! Que povo intolerante! Mas isso, meu caro senhor, não é nada diante do que aconteceu com Isaías, que foi condenado pelo rei Manassés a ter o corpo serrado ao meio. Castigo maior não há, ou há? Certamente há. As malvadezas humanas são infindas, caríssimo. Por vezes, quando um homem grosseiro depara-se com um tipo a falar coisas do futuro que não lhe agradam ou que ele imagina serem o contrário do que está sendo dito, há que se preparar o físico para o sacrifício. Não se iluda.
Hoje seria fácil imaginar que um mundo tão cético de tudo e de todos inibisse a crença em profetas. Sua atenção ao folhetim é prova do contrário. A crença em quem diz prever o futuro resiste ao tempo. E você sabe muito bem disso, pois  leu nos jornais o que aconteceu recentemente em Roma: milhares de romanos abandonaram a cidade com medo de um abalo sísmico previsto numa profecia. Em pleno séc. XXI, e na Europa, pessoas abandonam uma cidade atemorizadas por algo que, com o perdão dos crédulos, provou não valer um atravessar de rua. Sim, todos bem sabemos que o senhor atravessaria um oceano por muito menos. Na Idade Média o horror causado por certas profecias equivalia a um prenúncio de morte iminente. Permita-me discorrer sobre um escrito? Obrigado.
Alexandre Herculano n’O Monge de Cister conta um causo ocorrido com Fernando Afonso, Camareiro-menor do rei D. João I. Tal mancebo tinha o vício de satisfazer os próprios instintos enganando donzelas despercebidas de seu ardil.  Fernando atraía-as e, quando satisfeito, abandonava-as na rua da amargura e do descrédito popular, posto que o povo de Portugal dos idos do séc. XIV não via com bons olhos moça seduzida e abandonada. Apesar de boa estirpe, o Camareiro-menor de D. João I tinha um péssimo caráter e sua consciência era o mais reles livro de moral. Como enfear mais tal retrato? Eis que um belo dia essa índole pervertida teve o desprazer de estar no mesmo ambiente que o profeta Mestre Guedelha, que, além de profeta, era astrólogo, tal qual o Amadeus do folhetim que lhe chamou a atenção. O temível astrólogo Guedelha, após ver a disposição dos astros, profetizou ao Camareiro-menor Fernando Afonso que iria haver uma monstruosa morte de alguém notável.  Bem há de se imaginar qual pessoa notável estava implícita na disposição dos astros. Um dia ele foi pego por seus crimes e pagou com a própria vida numa grande fogueira. Ao encaminhar-se para o triste fim não houve quem não dissesse ao nobre rapaz Lembrai-vos da profecia de Mestre Guedelha!”.
Triste fim dos que fazem os outros sofrerem...
Sim, meu senhor, triste fim, mas uma coisa o senhor há de convir: a despeito de um acerto aqui, outro acolá, ninguém, como diria o bom ditado popular, é profeta em sua terra. Voltemos ao folhetim.