O senhor sicrano da esquina é uma dessas almas. A ele não importa dizer que o futuro não existe, se vê alguém a prevê-lo, rende-lhe devotos pensamentos. Saber do futuro interessa-lhe mais que as preocupações comezinhas do presente, é nele que ele se encontra.
Um dia, chegando a casa no horário habitual, dá-lhe na veneta assistir à televisão. Na novela que passava, havia um profeta. Sua atenção logo foi despertada e os olhos se fixaram na figura do ator a interpretar aquele a quem tantos temem. Que grande ator. O senhor sicrano da esquina passa a acompanhar aquele folhetim televisivo. Como as novelas se inovam, pensava, deram de pôr agora até profetas! O personagem é Miguezim, como é chamado pelo povo do sertão onde mora, suas profecias ocorrem com a ânsia de salvar das agruras do sertão esse mesmo povo. Puxa! que homem bom! que homem sabido!
Cuidado, senhor, não se apegue às aparências. A consciência do senhor sicrano da esquina por vezes o puxava à razão. Emocionar-se é algo valoroso, mas deixar-se levar por piegas emoções pode afrouxar o coração e aí não há quem socorra. Há uma heroína por quem o profeta vela, cujo nome é nome de flor, bela como a coroa que cinge nobres cabeças. O profeta Miguezim venera Açucena, também chamada Aurora, isso toca o coração do senhor diante da tela. Há um outro profeta. Dois? Sim, dois. Seu nome é Amadeus, é astrólogo e reside num reino distante, provavelmente rodeado de todos os livros e apetrechos que o auxiliam na inspiração de suas profecias. Dois profetas num mesmo folhetim. Isso poderia nos causar certa estranheza, mas no senhor diante da tela causou tal emoção que ele decidiu estudar a vida dos profetas existentes no mundo. Tal empreitada era difícil, posto que requeria tempo e de tempo ele dispunha pouco. Mas a curiosidade fê-lo vencer os obstáculos. Vamos, senhor sicrano da esquina, há um grande caminho pela frente.
Hoje seria fácil imaginar que um mundo tão cético de tudo e de todos inibisse a crença em profetas. Sua atenção ao folhetim é prova do contrário. A crença em quem diz prever o futuro resiste ao tempo. E você sabe muito bem disso, pois leu nos jornais o que aconteceu recentemente em Roma: milhares de romanos abandonaram a cidade com medo de um abalo sísmico previsto numa profecia. Em pleno séc. XXI, e na Europa, pessoas abandonam uma cidade atemorizadas por algo que, com o perdão dos crédulos, provou não valer um atravessar de rua. Sim, todos bem sabemos que o senhor atravessaria um oceano por muito menos. Na Idade Média o horror causado por certas profecias equivalia a um prenúncio de morte iminente. Permita-me discorrer sobre um escrito? Obrigado.
Alexandre Herculano n’O Monge de Cister conta um causo ocorrido com Fernando Afonso, Camareiro-menor do rei D. João I. Tal mancebo tinha o vício de satisfazer os próprios instintos enganando donzelas despercebidas de seu ardil. Fernando atraía-as e, quando satisfeito, abandonava-as na rua da amargura e do descrédito popular, posto que o povo de Portugal dos idos do séc. XIV não via com bons olhos moça seduzida e abandonada. Apesar de boa estirpe, o Camareiro-menor de D. João I tinha um péssimo caráter e sua consciência era o mais reles livro de moral. Como enfear mais tal retrato? Eis que um belo dia essa índole pervertida teve o desprazer de estar no mesmo ambiente que o profeta Mestre Guedelha, que, além de profeta, era astrólogo, tal qual o Amadeus do folhetim que lhe chamou a atenção. O temível astrólogo Guedelha, após ver a disposição dos astros, profetizou ao Camareiro-menor Fernando Afonso que iria haver uma monstruosa morte de alguém notável. Bem há de se imaginar qual pessoa notável estava implícita na disposição dos astros. Um dia ele foi pego por seus crimes e pagou com a própria vida numa grande fogueira. Ao encaminhar-se para o triste fim não houve quem não dissesse ao nobre rapaz “Lembrai-vos da profecia de Mestre Guedelha!”. Triste fim dos que fazem os outros sofrerem...
Sim, meu senhor, triste fim, mas uma coisa o senhor há de convir: a despeito de um acerto aqui, outro acolá, ninguém, como diria o bom ditado popular, é profeta em sua terra. Voltemos ao folhetim.