terça-feira, 1 de maio de 2012

De flores e pedras


Hammock (1844) by Gustave Courbet
     
     Zita Vladinovska é a mais nova de três irmãos e a única que mora com sua mãe. O pai morreu quando a filha era ainda uma menina, o que contribuiu para que a mãe não se casasse novamente. Viviam com uma parca pensão que supria suas necessidades básicas, além do trabalho de Vladinovska, e que as fazia manter a tradição de interioranos (almoços periódicos em família, festejos de datas especiais, casa florida). A mãe era uma senhora cumpridora de seus deveres para com a religião e para com o cuidado da casa. Os filhos eram seu maior tesouro, apesar de fria e distante com eles. O básico (boa educação e firme senso moral) ela lhes dera, o resto que eles buscassem por conta própria.
      
       Boa educação e senso moral, quão raro isso hoje em dia!
      Era uma quarta-feira cinzenta. O rádio anunciava pelo serviço meteorólogico que iria chover no fim da tarde. Vladinovska acordou bem cedo como de costume, tomou apenas café, feito por sua mãe que o preparava antes de a filha se levantar, e rumou para o trabalho a 40 minutos de casa. O ônibus, como sempre pela manhã, estava lotado, mas nesta quarta-feira isso não a importunava, pois seria o dia em que ela trabalharia apenas até o almoço (dia de fechamento de contas, meio dia de folga para a recepcionista). Durante o percurso, Vladinovska observou o quanto uma cidade arborizada era bonita. As árvores vistosas e os jardins floridos que dividiam as avenidas davam a quem os observava uma agradável sensação de bem-estar.  Ela fazia questão de se concentrar em cada pedaço da paisagem urbana, observando detalhes e ângulos que podem revelar lugares despercebidos no corre-corre do dia a dia. Passavam-lhe pela cabeça os versos do português Fernando Pessoa, cujo livro de poesias um tio lhe dera, versos que ela levaria in perpetuum  na memória: “O essencial é saber ver,/ Saber ver sem estar a pensar,/ Saber ver quando se vê,/ E nem pensar quando se vê/ nem ver quando se pensa”. Se estava a olhar para fora do ônibus, ela só pensava em se concentrar no que via,  que nada mais importasse.
      Quando chegou ao trabalho, seu chefe já estava tomando o café e cobrando por telefone o cumprimento dos anúncios nos jornais. O bom-dia foi seco e distante. Ela dirigiu-se a sua mesa que fica na sala ao lado da dele e pôs-se a organizar os trabalhos daquela manhã que certamente demoraria a passar. Não demorou. Eram 12h quando Vladinovska já estava dispensada para ir para casa. A manhã passou mais rápido que de costume. Havia poucos afazeres, a empresa de anúncios recebera poucos clientes. Todos no escritório estavam voltados para o balanço anual.
      A volta foi tranquila. Como de costume, o rush propriciou à Vladinovska uma longa viagem nos braços de Morfeu. Era impressionante o efeito que esse horário provocava na moça. Após o almoço, a siesta era necessária, invariavelmente todos os dias. No escritório era um pouco difícil obedecer a esse rigoroso horário biológico, mas não impossível. Raramente os demais funcionários, assim como seu chefe, almoçavam aí. Ela aproveitava o silêncio do horário e tirava um cochilo rápido, de vinte minutos a meia hora, o que equivalia em valor a uma noite de sono.
      Chegou enfim a casa. A boa comida caseira é para poucos e Zita Vladinovska poderia se considerar uma afortunada, pois sua mãe tinha mãos mágicas, sabia cozinhar maravilhosamente. Nascida na pequena cidade interiorana de Holambra, a uns 120 km da capital São Paulo, a mãe aprendera com os seus a cozinhar o melhor da comida brasileira e da comida holandesa, da qual se sobressaiam arroz, feijão, farofa de milho, batatas, carne de porco, além de pratos especiais da Holanda, país de seus ascendentes (como o Ayam Kerrie ou frango ao curry). Holambra, cidade onde nasceram Vladinovska e sua família, é famosa pelas flores que cultiva. Daí um hábito que a família levava onde quer que residisse. Toda a semana, a mãe repunha o jarro de flores que ficava na mesa no centro da sala de jantar, com flores as mais coloridas, que traziam à lembrança sua infância de trabalho e cultivo.
      Após o almoço, Vladinovska ajudou a mãe nos afazeres da casa, dirigiu-se ao quarto para leituras e  para pensar em como  aproveitaria o resto do dia de folga. Algo a inquietava. Decidiu ir ao cinema no final da tarde. Assim foi. Eram quatro horas quando entrou no ônibus rumo ao cinema a umas 10 quadras de casa. O dia estava cinzento, típica cor dos dias de outono. As árvores tinham um verde característico, meio cor de musgo, o amarelo dos ipês do trajeto realçavam a beleza dessa cor, como isso era prazeroso de se ver... Um belo dia a ser vivido.
      Mas não para Zita Vladinovska. Um mal-estar perpassava-lhe as entranhas e nada em que ela pensasse quietava seu espírito. Ela pressentia que havia algo errado na condução de seu destino. Ela não se enganara. Apesar de ainda não se ter chegado a uma conclusão definitiva sobre a intuição, o fato é que ela é inata a todos nós. Tal qual os irracionais que sempre estão a postos na defesa da própria vida, pressentimos que algo que envolve a sobrevivência está para acontecer. E ramente nos engamos.
      A seis quadras de chegar ao ponto em que teria de descer para ir ao cinema. Vladinovska percebeu que o ônibus em que estava era seguido por um carro.  A atitude do veículo ao lado do seu era de causar estranheza, sempre as mesmas paradas, sempre a mesma velocidade. Numa das paradas, ela percebeu que seu temor era compartilhado, o olhar do cobrador ao ver três homens que, saindo do carro ao lado, entraram em seguida no ônibus, era assustador. Tais homens entraram no ônibus em que estava Vladinovska, passaram a roleta e anunciaram o assalto.
      Em princípio ela pensou que fosse uma brincadeira, uma brincadeira de muito mau gosto como as milhares que existem no mundo. Aqueles três homens que não tinham muito mais que seus vinte e poucos anos só podiam estar pregando uma peça em alguém para depois anunciarem um pedido de casamento, um aumento de salário, uma brincadeira televisiva. Não podia ser verdade que seus pertences seriam levados, que ela e os demais passageiros corriam risco de morrer porque um bando de ensandecidos resolvera tomar o ônibus em que estava de assalto. Mas era verdade. Ela estava confinada numa caverna escura na selva a fugir de uma fera. Os movimentos dos bandidos eram rápidos, pois estavam nervosos e queriam terminar logo o serviço. Iniciaram a busca por objetos de valor e dinheiro na entrada do ônibus, tudo o que recolhiam era colocado num saco. Em minutos metade dos passageiros haviam entregue seus pertences, seus objetos de valor, haviam tido sua privacidade invadida. De súbito, um dos passageiros mexeu bruscamente na bolsa, foi o bastante para uma bala certeira romper-lhe as veias do coração e matá-lo fulminantemente. Esse homem sentava-se ao lado de Vladinovska, que gritou aterrorizada, um dos bandidos voltou-se para ela e disse que, se continuasse a gritar, iria estourar-lhe os miolos. Queda ela ficou, queda olhou o morto ao seu lado, queda viu que havia sangue em sua camisa florida.
     Quando os ladrões desceram do ônibus correndo e dirigiram-se ao carro em que estavam, Vladinovska agradeceu a Deus a vida que lhe restou. O alvoroço no ônibus era tamanho. Ao sair daí, ela pensou em que decisão tomar, não fez questão de ir à delegacia prestar queixa, dar depoimentos etc., não tinha força física nem espiritual para isso, estava desolada. Fez a única coisa que lhe restava fazer: ir para casa a pé sob a chuva fina e incessante que caía.
Referência:
MUNCH, Edvard, O Grito (Skrik), 1893.