Desde os primórdios da humanidade, o homem pesca. Na Bíblia há vários relatos disso e o peixe é o símbolo dos cristãos, inclusive. Para pescar o homem usa barcos (dos mais diversos tamanhos) ou apenas uma vara ou outros apetrechos, e por mais que certas cidades cresçam, há sempre um espaço para realizar essa atividade milenar.
Vitória, capital do Espírito Santo, é um exemplo de cidade que, apesar de urbana e populosa, mantém aqui, ali, ou acolá, em sua costa, pescadores artesanais que nos lembram aqueles da antiguidade, que se preocupavam basicamente com a própria subsistência, concentrando-se nas causas que influenciavam as marés e no tipo de pescado. Há que se observar que a palavra maré tem, curiosamente, tantas acepções quanto o tipo de pesca a que se entrega o homem.
Reflito sobre isso quando recordo um fato ocorrido na Av. Beira-Mar, no Centro de Vitória. Seguia eu tranquila o percurso na calçada, quando estupefata parei diante de uma espécie enorme de lesma a se contorcer próxima a um pescador. Assustada interpelei-o sobre a horrenda criatura:
- Moço, que é isso?!
- Não tenha medo, não, já dei uma pancada na cabeça dele!
- Mas o que é isso?!
- É um caramuru.
- Por que o senhor não o joga de volta à água?!
- Que isso! é comida! vamos aprontar daqui a pouco.
- Ah! sim, se é comida....
Dei-lhe boa noite e corri a casa, com a viva imagem daquele bicho horroroso, decidida a comprovar seu nome através de pesquisas. O primeiro livro que abri foi o Dicionário Aulete; na procura dei com uma imagem semelhante ao que vira na calçada, porém com o nome de moréia. Fui então ao nome caramuru para ver a definição, ei-la:
CARAMURU, s.m. (Bras.) espécie de grande moréia (Gymnothorax moringua ou Lycodontes moringua), cuja mordedura é perigosa. // Nome que se dava antigamente aos europeus. // Membro do partido político que, sob a chefia de José Bonifácio, pleiteava a restauração de D. Pedro I; camelo. // Adepto do grupo contrário à declaração da maioridade de D. Pedro II. // (Rio Grande de Sul) Imperialista (membro do partido conservador, no Império). // F. tupi.
Caramuru e moréia são usados como sinônimos no Brasil. Caramuru foi também o apelido dado por índios tupinambás a um navegador português, Diogo Álvares Correia, encontrado nu e coberto de algas, após um naufrágio, no litoral baiano, por volta de 1500, e cujos feitos foram cantados em versos por Frei José de Santa Rita Durão, num poema épico. Como se vê, sua popularidade aqui se estende à História e à Literatura.
Apesar disso, o fato é que a figura do peixe caramuru é sustento para mais de um mês de pesadelo, o que só tende a acentuar a coragem de certos pescadores. Ao pensar em sua importância vária, fico a vê-lo com mais complacência, porém sem querer vê-lo jamais, nem como alimento.
P.S.: Cortesia de imagem da ancestryimages.com.
