quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Caramuru – Uma pequena crônica


Desde os primórdios da humanidade, o homem pesca. Na Bíblia há vários relatos disso e o peixe é o símbolo dos cristãos, inclusive. Para pescar o homem usa barcos (dos mais diversos tamanhos) ou apenas uma vara ou outros apetrechos, e por mais que certas cidades cresçam, há sempre um espaço para realizar essa atividade milenar.

Vitória, capital do Espírito Santo, é um exemplo de cidade que, apesar de urbana e populosa, mantém aqui, ali, ou acolá, em sua costa, pescadores artesanais que nos lembram aqueles da antiguidade, que se preocupavam basicamente com a própria subsistência, concentrando-se nas causas que influenciavam as marés e no tipo de pescado. Há que se observar que a palavra maré tem, curiosamente, tantas acepções quanto o tipo de pesca a que se entrega o homem.

Reflito sobre isso quando recordo um fato ocorrido na Av. Beira-Mar, no Centro de Vitória. Seguia eu tranquila o percurso na calçada, quando estupefata parei diante de uma espécie enorme de lesma a se contorcer próxima a um pescador. Assustada  interpelei-o sobre a horrenda criatura:

- Moço, que é isso?!
- Não tenha medo, não, já dei uma pancada na cabeça dele!
- Mas o que é isso?!
- É um caramuru.
- Por que o senhor não o joga de volta à água?!
- Que isso! é comida! vamos aprontar daqui a pouco.
- Ah! sim, se é comida....

Dei-lhe boa noite e corri a casa, com a viva imagem daquele bicho horroroso, decidida a comprovar seu nome através de pesquisas. O primeiro livro que abri foi o Dicionário Aulete; na procura dei com uma imagem semelhante ao que vira na calçada, porém com o nome de moréia. Fui então ao nome caramuru para ver a definição, ei-la:

CARAMURU, s.m. (Bras.) espécie de grande moréia (Gymnothorax moringua ou Lycodontes moringua), cuja mordedura é perigosa. // Nome que se dava antigamente aos europeus. // Membro do partido político que, sob a chefia de José Bonifácio, pleiteava a restauração de D. Pedro I; camelo. //  Adepto do grupo contrário à declaração da maioridade de D. Pedro II. // (Rio Grande de Sul) Imperialista (membro do partido conservador, no Império). // F. tupi.

Caramuru e moréia são usados como sinônimos no Brasil. Caramuru foi também o apelido dado por índios tupinambás a um navegador português, Diogo Álvares Correia, encontrado nu e coberto de algas, após um naufrágio, no litoral baiano, por volta de 1500, e cujos feitos foram cantados em versos por Frei José de Santa Rita Durão, num poema épico. Como se vê, sua popularidade aqui se estende à História e à Literatura.

Apesar disso, o fato é que a figura do peixe caramuru é sustento para mais de um mês de pesadelo, o que só tende a acentuar a coragem de certos pescadores. Ao pensar em sua importância vária, fico a vê-lo com mais complacência, porém sem querer vê-lo jamais, nem como alimento.

P.S.: Cortesia de imagem da ancestryimages.com.



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011



The Studio Boat, Monet, 1874

À terra provisória

Adeus cimos e vales e veredas,
e bosques e clareiras e campinas
soltas ao vento, sacudindo as crinas
das espigas do sol na luz de seda.

 Adeus troncos e copas e alamedas,
esmeraldas selvagens que as neblinas
salpicavam de prata, adeus colinas
que iam subindo como labaredas

de cobalto no ar... Adeus beleza
irrepetível, que me viu nascer
e toca-me deixar: a natureza

também é feita de deixar de ser,
e eu levo agora a sombra e deixo a presa
à inevitável luz do amanhecer.

Bruno Tolentino

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Montaigne

Montaigne é um dos escritores mais importantes da Renascença. Seus Ensaios foram lançados há mais de três séculos e seria curioso saber quantos o leram, ou quantos na França, seu país de origem. Certamente o número de leitores não faz jus à importância de uma obra. Quantos  bons escritores não permanecem no anonimato? Mas não é o caso de Montaigne, ele é bom e conhecido, mas pouco lido.  A dificuldade de conhecer no Brasil um adulto que tenha lido Montaigne  talvez resida no fato de que ler os clássicos seja um hábito muito pouco difundido entre nós, ao contrário do período em que ele viveu, séc. XVI, das redescobertas dos grandes autores da Antiguidade: Aristóteles, Platão, Sêneca, Epicuro, Plutarco, Ovídio, Petrarca,  entre outros, que consolidaram ideias que sobrevivem ao passar do tempo e que ainda inspiram grandes estudiosos.
Os Ensaios compõem-se de três livros em que Montaigne analisa as ações e os sentimentos dos homens de sua época e da que o antecedeu, tão atuais quanto fossem escritos hoje, algo inimaginável a ele, pois, segundo o que diz, sua preocupação ao escrever era menos agradar ao público que  traçar um retrato fiel de si mesmo, de seu caráter e de suas ideias, aos parentes e amigos, para que não se esquecessem dele quando ele já não fizesse parte desse mundo.  Alguns talvez considerem isso falsa modéstia de criador, porém, seja ou não verdade, o fato é que Montaigne criou uma obra-prima, dada a clareza e a riqueza na exposição de ideias, cujo mérito maior foi ter considerado o homem em si e não nos adornos que o compunham:  É sem dúvida mais bela a harmonia entre fazer e dizer, e não pretendo negar que nesse caso mais autoridade tenham os atos,  e mais eficiência.” (Montaigne, 2000, p.85).
Com o objetivo de mostrar as mais inusitadas facetas humanas e de falar de si mesmo, Montaigne nos expõe uma riqueza de elementos admirável, em poucas páginas veem-se desde regras de viver em sociedade até refinadas análises filosóficas; de costumes dos mais variados povos aos costumes reinantes em sua própria casa, coloridos com as mais diversas personagens sociais, começando por ele próprio: mendigos, nobres, clérigos, romeiros, condenados, bárbaros, belos, feios, alegres, tiranos, canibais, índios, mulheres do povo, nobres, dóceis,  encolerizadas, cortesãs, nada escapou à observação arguta desse grande escritor, nem os bichos, destes há uma bela defesa, inclusive.
Apesar de diferentes, os homens não se distinguem em essência, sentimos frio, fome, tememos a morte, o desconhecido, choramos com a dor, e até a razão que sempre deve guiar também pode perturbar, haja vista sermos imperfeitos, diante disso, como católico, Montaigne recorre também a Deus na busca do melhor caminho da sabedoria, que atenua o sofrimento. Sobre Ele o autor preenche páginas e páginas, nas quais não poupou críticas aos cristãos, aos ateus e até a alguns filósofos, como Platão.  Esse caráter religioso de Montaigne talvez impeça muitos de o lerem, vendo-o com grande desconfiança. Esse preconceito é tão limitador e danoso quanto àquele que impele a separatismos oficiais e merece vivo desprezo, assim como se deve compreender o rigor com que o autor se dirige aos ateus, ainda que se discorde dele.
Apesar da presença religiosa, os escritos de Montaigne são pautados na existência humana, por isso há até quem diga que Deus aparece aí a servir o homem, impropério tamanho. Nem Deus está aí a servir o homem, nem Montaigne serve-se somente de Deus para atingi-lo, não há necessidade disso, a história humana é muito rica para que Montaigne a despreze. E ele não a despreza, daí serem os Ensaios considerados escritos ceticistas, o que não está  longe da verdade:
   Somos vítimas da inconstância, da irresolução, da incerteza, do luto, da superstição, da preocupação com o futuro, inclusive o de depois da morte, da ambição, da avareza, do ciúme, da inveja, dos apetites desregrados e insopitáveis, da guerra, da mentira, da deslealdade, da intriga e da curiosidade. Pagamos, pois, bem caro a tão decantada razão de que nos jactamos, e a faculdade de julgar e conhecer, se a alcançamos, é à custa do número infinito de paixões que nos assaltam sem cessar. (Montaigne, 2000, p.407)
Estamos condenados a ser imperfeitos, porém o grande mérito de Montaigne foi mostrar que, ainda assim, podemos ter uma existência bem vivida, cuja chave está em aprimorar o que há de mais virtuoso em nós apesar de tantos disparates. Com uma escrita exemplar, simples e primorosa, ele teceu o caminho e nos deixou um legado riquíssimo em ensinamentos.
Comete grande equívoco quem pensa que os Ensaios não são de grande valia nos tempos atuais, além dos relatos históricos, das análises filosóficas, sendo o que é, um clássico, sua importância é perene. Se esse argumento não serve de estímulo, que sirva o fato de que Shakespeare inspirou-se neles para compor uma de suas peças (The Tempest), de que Voltaire compôs versos elogiosos ao seu autor, de que Pascal usou seus argumentos, de que Stendhal consultou-os para escrever um tratado sobre o amor, além de inúmeros ensaístas, como o norte-americano Ralph Waldo Emerson, e muitos outros grandes que reconheceram sua importância hoje e sempre.

Referência bibliográfica:
MONTAIGNE, Michel de.  Ensaios. São Paulo : Editora Nova Cultural, 2000. 2 v.   

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Supermercado São José

O supermercado São José é um dos mais tradicionais de Vitória, Espírito Santo. Sua primeira sede consta de 1918, época das mercearias.
Sr. Homero, um dos funcionários mais antigos do Grupo Neffa (proprietário do estabelecimento), hoje aposentado, contou-me uma vez que quando se começou a usar carrinhos para agrupar as compras, os consumidores ficavam meio perdidos porque não sabiam que poderiam dispor de tal para dirigir-se às prateleiras, antes inacessíveis, exigindo assim que o proprietário as orientasse.
Outros supermercados viriam depois e supririam também com satisfação as necessidades mais comezinhas, necessárias ou fúteis de seus habitantes, mas o São José, do Centro de Vitória,  resiste ao tempo e à expansão tão comum atualmente. Isso talvez seja um ponto – ou vários – a  seu favor, pois frequentá-lo é como frequentar  aquelas velhas vendas do interior, com pessoas aglomeradas no balcão, tomando cerveja ou uma pinguinha, ou ambos, em que feijões, arroz e outros, vendidos a granel, compõem a decoração, juntamente com linguiças penduradas.  Remeter-nos a esse espaço é uma das melhores coisas do São José. E tal sensação é a mesma quando se frequenta o restaurante self-service anexo ao hotel do mesmo grupo, Slaviero Slim Alice Vitória; as poltronas, os talheres, os funcionários devidamente uniformizados, tudo alude a um tempo de elegância e simplicidade hoje pouco vistos.
Fico a pensar nisso, quando me recordo o que aconteceu um dia em que eu estava fazendo compras nesse supermercado. Eram meados da tarde, havia pouca gente no estabelecimento e isso despertou-me a atenção, eis que há burburinho e fica-se sabendo que funcionários da Secretaria da Fazenda haviam fechado o estabelecimento para vistorias. Isso não seria de se admirar se não fosse o tom apoteótico do acometimento: impediram-se clientes de entrar no local (e tive temor de nos impedirem de sair!), encerraram-se as atividades dos caixas, fecharam-se as portas.
Não se visa reclamar do poder fiscalizador e regulador do estado. Fazer com que se cumpram contratos é uma de suas  funções mais, digamos, defendidas. O que me chamou a atenção foi o transtorno causado por funcionários públicos que pareciam estar fazendo as vezes de atores televisos. Se o que se admira no São José é o seu ainda aspecto familiar, como ficar incólume vendo-o tomado de assalto em plena luz do dia? A sensação que muitos tiveram era perceptível: algo de errado e grave estava acontecendo e isso podia nos atingir a todos, e talvez fora isso que fizera uma das funcionárias dele sentir-se mal e ser amparada por colegas.
Nos jornais locais do dia seguinte, lê-se que os servidores da Receita Estadual foram trancados no escritório do supermercado, impedidos de sair, talvez por isso, creio, certo tumulto. Não foi explicada  a razão de tal evento, não foi admitida a pertubação causada a um estabelecimento que prima pela atmosfera intimista, como prima o São José.


domingo, 9 de janeiro de 2011

Rio de Janeiro

No final de 2010 e início de 2011 passei uns dias no Rio de Janeiro, com uma amiga que não via há anos, Denise A., mãe de Enzo, de dois aninhos, o qual eu ainda não conhecia.
Os preparativos e a chegada ao local de destino foram, apesar de alguns contratempos, tranquilos. Mas tratando-se de mim e tratando-se de viagens, nem tudo são flores. Sou dada a rotinas. Sei que alguns só de ouvir essa palavra se arrepiam. Eu, não. Adoro ter meus horários certos, dormir e acordar na mesma cama, ficar em casa lendo ou cuidando de afazeres. Diante disso, os primeiros dias num local diferente do usual sempre são difíceis, o que tentei aplacar mantendo hábitos que levo aonde vou, como a corrida (o velho e bom cooper), que só consegui manter nos dois primeiros dias dessa viagem, devido a chuvas na cidade e à preguiça que se abateu sobre mim, caso raro que atribuo ao tempo e ao bairro em que fiquei, Santa Teresa, local tradicional, antigo e belíssimo do Rio de Janeiro, com morros e acesso um tanto difícil.
A cidade do Rio de Janeiro, com seus prédios antigos, com seu povo descontraído e charmoso, tem algo que atrai o coração mais frio e distante, e Santa Teresa a representa muito bem.
Como nem tudo é subida, descida, parada, conversa e cerveja, visitei alguns sebos e num, no centro da cidade, fiz boas aquisições:
 Santo Agostinho: Confissões. (Achei esta tradução melhor do que a que eu tinha.)
Octávio Tarquínio de Sousa: José Bonifácio.
Durante a estada, ganhei de presente outros livros de um grande amigo e também ótimo anfitrião, Quentin W., de origem inglesa:
     Chaucer:  The Canterbury Tales.
     Milton: Paradise Regained.
     The SONNETS of WILLIAM SHAKESPEARE.
     P.G. Wodehouse: Plum Pie.
     Charles Dickens: A Christmas Carol.
     Mary Soames: Speaking for themselves, the personal letters of Winston and Clementine Churchill.
Conheci o mosteiro de São Bento (em que assisti a uma Missa cantada), o Convento de Santo Antônio e a Igreja de São Francisco da Penitência, estes últimos em plena reforma, mas que não impediu de apreciar a belíssima arte barroca. Inesquecíveis. Além de comprar livros e conhecer belos templos,  fui a uma loja “vintage” de roupas produzidas até a década de oitenta, de onde adquiri duas peças que me custaram todos os níqueis (quem mo dera “níqueis”!) da carteira.
Visitamos, eu, Denise A. e a família, o parque Nacional da Tijuca, um portento de lugar. No alto daí vimos o quanto a cidade do Rio de Janeiro, precisamente a Zona Sul, é arborizada e como que, curiosamente, a cor creme de seus prédios os torna visualmente belos quando vistos de longe, estava um dia chuvoso, de céu cinza, e essa cor acentuava a antiguidade deles.
No heliporto, o preço para se andar de helicóptero era no mínimo curioso, 10 minutos custavam quase 200 reais. Eu não pagaria nem um minuto porque tenho pavor de altura e só viajo de avião porque tenho também pavor de passar horas em ônibus (sempre imagino que o motorista está cansado e com sono), mas há quem pague. E goste. Há gosto para tudo nesse mundo. 
Em seguida fomos a um restaurante no Alto da Boa vista, onde havia um parquinho, no qual Enzo (filho de minha amiga) brincou a valer. A infância só sabe que vive, e ri, de acordo com o que li num estudo de Gramática. Também belo ver isso.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

E no princípio...

A partir de hoje, exporei o que penso digitando minhas idéias. Talvez devesse marcar a palavra “digitando”, porque o fato é que preferia começar meus escritos pelo lápis a descrever o que penso num papel, mas não disponho de caderno, a vontade de falar urge, libertar-me é preciso.  Divago.
São tantas as coisas a serem ditas que a razão de minha eterna timidez em dizê-las talvez resida aí. Porém preciso vencê-la, preciso porque necessário à minha existência intelectual que só importa a mim e isso já é muito. Preciso organizar minhas idéias num todo estruturado, cujo cerne encontra-se na escrita. Sempre soube ser ela uma forma de organizar e estruturar o pensamento, por isso a incentivo quando posso. A escrita é a própria organização do ser, forma de linguagem que o expressa límpido, turvo, claro, obscuro, mas o expressa. É ela que me contém e na qual me sinto continente.
Há muito se sabe que uma folha de escrito por dia é o primeiro passo a alimentar o hábito e que através deste pode-se atingir a perfeição, Aristóteles o disse. Perfeição pra mim é escrever um todo inteligível e não entediante, Aristóteles o fez e conquistou-me com seus princípios de Bem e de Virtude. Ao escrever a Nicômaco, Aristóteles educou uma civilização, o que era destinado a um tornou-se uno, universal,  acessível  a quem tem o hábito de aprender com o passado.
Poderia ficar falando folhas e folhas de todas as leituras que me consolidaram, que formaram e formam meu espírito, que mostraram a ele que ser humano é um exercício perene e árduo, cujo fim talvez nem se encontre na morte, cujas respostas  estão nas correções feitas e nos rabiscos desprezados e passados a limpo.  Mas não falarei de minhas leituras porque sou incapaz de lembrar um trecho, uma linha, uma frase que seja de alguma delas, nada me vem à cabeça, porque o que ficou marcado foi a essência de suas idéias, a alma plena contida em seus escritos.
O que sou é fruto de um amontoado de coisas nobres e vulgares, seletas e disformes,  tensas e intensas, conforme a lembrança que tenho e a lembrança que guardo e que me agrada.  Evidente que nada disso importa quando se tem em conta o presente e a quietude do espírito. O certo é que a cada dia renasço em mim e me descubro bípede, racional e emotiva, em contínuos passos de outrora e adiante.