Montaigne é um dos escritores mais importantes da Renascença. Seus Ensaios foram lançados há mais de três séculos e seria curioso saber quantos o leram, ou quantos na França, seu país de origem. Certamente o número de leitores não faz jus à importância de uma obra. Quantos bons escritores não permanecem no anonimato? Mas não é o caso de Montaigne, ele é bom e conhecido, mas pouco lido. A dificuldade de conhecer no Brasil um adulto que tenha lido Montaigne talvez resida no fato de que ler os clássicos seja um hábito muito pouco difundido entre nós, ao contrário do período em que ele viveu, séc. XVI, das redescobertas dos grandes autores da Antiguidade: Aristóteles, Platão, Sêneca, Epicuro, Plutarco, Ovídio, Petrarca, entre outros, que consolidaram ideias que sobrevivem ao passar do tempo e que ainda inspiram grandes estudiosos.
Os Ensaios compõem-se de três livros em que Montaigne analisa as ações e os sentimentos dos homens de sua época e da que o antecedeu, tão atuais quanto fossem escritos hoje, algo inimaginável a ele, pois, segundo o que diz, sua preocupação ao escrever era menos agradar ao público que traçar um retrato fiel de si mesmo, de seu caráter e de suas ideias, aos parentes e amigos, para que não se esquecessem dele quando ele já não fizesse parte desse mundo. Alguns talvez considerem isso falsa modéstia de criador, porém, seja ou não verdade, o fato é que Montaigne criou uma obra-prima, dada a clareza e a riqueza na exposição de ideias, cujo mérito maior foi ter considerado o homem em si e não nos adornos que o compunham: “É sem dúvida mais bela a harmonia entre fazer e dizer, e não pretendo negar que nesse caso mais autoridade tenham os atos, e mais eficiência.” (Montaigne, 2000, p.85).
Com o objetivo de mostrar as mais inusitadas facetas humanas e de falar de si mesmo, Montaigne nos expõe uma riqueza de elementos admirável, em poucas páginas veem-se desde regras de viver em sociedade até refinadas análises filosóficas; de costumes dos mais variados povos aos costumes reinantes em sua própria casa, coloridos com as mais diversas personagens sociais, começando por ele próprio: mendigos, nobres, clérigos, romeiros, condenados, bárbaros, belos, feios, alegres, tiranos, canibais, índios, mulheres do povo, nobres, dóceis, encolerizadas, cortesãs, nada escapou à observação arguta desse grande escritor, nem os bichos, destes há uma bela defesa, inclusive.
Apesar de diferentes, os homens não se distinguem em essência, sentimos frio, fome, tememos a morte, o desconhecido, choramos com a dor, e até a razão que sempre deve guiar também pode perturbar, haja vista sermos imperfeitos, diante disso, como católico, Montaigne recorre também a Deus na busca do melhor caminho da sabedoria, que atenua o sofrimento. Sobre Ele o autor preenche páginas e páginas, nas quais não poupou críticas aos cristãos, aos ateus e até a alguns filósofos, como Platão. Esse caráter religioso de Montaigne talvez impeça muitos de o lerem, vendo-o com grande desconfiança. Esse preconceito é tão limitador e danoso quanto àquele que impele a separatismos oficiais e merece vivo desprezo, assim como se deve compreender o rigor com que o autor se dirige aos ateus, ainda que se discorde dele.
Apesar da presença religiosa, os escritos de Montaigne são pautados na existência humana, por isso há até quem diga que Deus aparece aí a servir o homem, impropério tamanho. Nem Deus está aí a servir o homem, nem Montaigne serve-se somente de Deus para atingi-lo, não há necessidade disso, a história humana é muito rica para que Montaigne a despreze. E ele não a despreza, daí serem os Ensaios considerados escritos ceticistas, o que não está longe da verdade:
Somos vítimas da inconstância, da irresolução, da incerteza, do luto, da superstição, da preocupação com o futuro, inclusive o de depois da morte, da ambição, da avareza, do ciúme, da inveja, dos apetites desregrados e insopitáveis, da guerra, da mentira, da deslealdade, da intriga e da curiosidade. Pagamos, pois, bem caro a tão decantada razão de que nos jactamos, e a faculdade de julgar e conhecer, se a alcançamos, é à custa do número infinito de paixões que nos assaltam sem cessar. (Montaigne, 2000, p.407)
Estamos condenados a ser imperfeitos, porém o grande mérito de Montaigne foi mostrar que, ainda assim, podemos ter uma existência bem vivida, cuja chave está em aprimorar o que há de mais virtuoso em nós apesar de tantos disparates. Com uma escrita exemplar, simples e primorosa, ele teceu o caminho e nos deixou um legado riquíssimo em ensinamentos.
Comete grande equívoco quem pensa que os Ensaios não são de grande valia nos tempos atuais, além dos relatos históricos, das análises filosóficas, sendo o que é, um clássico, sua importância é perene. Se esse argumento não serve de estímulo, que sirva o fato de que Shakespeare inspirou-se neles para compor uma de suas peças (The Tempest), de que Voltaire compôs versos elogiosos ao seu autor, de que Pascal usou seus argumentos, de que Stendhal consultou-os para escrever um tratado sobre o amor, além de inúmeros ensaístas, como o norte-americano Ralph Waldo Emerson, e muitos outros grandes que reconheceram sua importância hoje e sempre.
Referência bibliográfica:
MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. São Paulo : Editora Nova Cultural, 2000. 2 v.