A partir de hoje, exporei o que penso digitando minhas idéias. Talvez devesse marcar a palavra “digitando”, porque o fato é que preferia começar meus escritos pelo lápis a descrever o que penso num papel, mas não disponho de caderno, a vontade de falar urge, libertar-me é preciso. Divago.
São tantas as coisas a serem ditas que a razão de minha eterna timidez em dizê-las talvez resida aí. Porém preciso vencê-la, preciso porque necessário à minha existência intelectual que só importa a mim e isso já é muito. Preciso organizar minhas idéias num todo estruturado, cujo cerne encontra-se na escrita. Sempre soube ser ela uma forma de organizar e estruturar o pensamento, por isso a incentivo quando posso. A escrita é a própria organização do ser, forma de linguagem que o expressa límpido, turvo, claro, obscuro, mas o expressa. É ela que me contém e na qual me sinto continente.
Há muito se sabe que uma folha de escrito por dia é o primeiro passo a alimentar o hábito e que através deste pode-se atingir a perfeição, Aristóteles o disse. Perfeição pra mim é escrever um todo inteligível e não entediante, Aristóteles o fez e conquistou-me com seus princípios de Bem e de Virtude. Ao escrever a Nicômaco, Aristóteles educou uma civilização, o que era destinado a um tornou-se uno, universal, acessível a quem tem o hábito de aprender com o passado.
Poderia ficar falando folhas e folhas de todas as leituras que me consolidaram, que formaram e formam meu espírito, que mostraram a ele que ser humano é um exercício perene e árduo, cujo fim talvez nem se encontre na morte, cujas respostas estão nas correções feitas e nos rabiscos desprezados e passados a limpo. Mas não falarei de minhas leituras porque sou incapaz de lembrar um trecho, uma linha, uma frase que seja de alguma delas, nada me vem à cabeça, porque o que ficou marcado foi a essência de suas idéias, a alma plena contida em seus escritos.
O que sou é fruto de um amontoado de coisas nobres e vulgares, seletas e disformes, tensas e intensas, conforme a lembrança que tenho e a lembrança que guardo e que me agrada. Evidente que nada disso importa quando se tem em conta o presente e a quietude do espírito. O certo é que a cada dia renasço em mim e me descubro bípede, racional e emotiva, em contínuos passos de outrora e adiante.