O supermercado São José é um dos mais tradicionais de Vitória, Espírito Santo. Sua primeira sede consta de 1918, época das mercearias.
Sr. Homero, um dos funcionários mais antigos do Grupo Neffa (proprietário do estabelecimento), hoje aposentado, contou-me uma vez que quando se começou a usar carrinhos para agrupar as compras, os consumidores ficavam meio perdidos porque não sabiam que poderiam dispor de tal para dirigir-se às prateleiras, antes inacessíveis, exigindo assim que o proprietário as orientasse.
Outros supermercados viriam depois e supririam também com satisfação as necessidades mais comezinhas, necessárias ou fúteis de seus habitantes, mas o São José, do Centro de Vitória, resiste ao tempo e à expansão tão comum atualmente. Isso talvez seja um ponto – ou vários – a seu favor, pois frequentá-lo é como frequentar aquelas velhas vendas do interior, com pessoas aglomeradas no balcão, tomando cerveja ou uma pinguinha, ou ambos, em que feijões, arroz e outros, vendidos a granel, compõem a decoração, juntamente com linguiças penduradas. Remeter-nos a esse espaço é uma das melhores coisas do São José. E tal sensação é a mesma quando se frequenta o restaurante self-service anexo ao hotel do mesmo grupo, Slaviero Slim Alice Vitória; as poltronas, os talheres, os funcionários devidamente uniformizados, tudo alude a um tempo de elegância e simplicidade hoje pouco vistos.
Fico a pensar nisso, quando me recordo o que aconteceu um dia em que eu estava fazendo compras nesse supermercado. Eram meados da tarde, havia pouca gente no estabelecimento e isso despertou-me a atenção, eis que há burburinho e fica-se sabendo que funcionários da Secretaria da Fazenda haviam fechado o estabelecimento para vistorias. Isso não seria de se admirar se não fosse o tom apoteótico do acometimento: impediram-se clientes de entrar no local (e tive temor de nos impedirem de sair!), encerraram-se as atividades dos caixas, fecharam-se as portas.
Não se visa reclamar do poder fiscalizador e regulador do estado. Fazer com que se cumpram contratos é uma de suas funções mais, digamos, defendidas. O que me chamou a atenção foi o transtorno causado por funcionários públicos que pareciam estar fazendo as vezes de atores televisos. Se o que se admira no São José é o seu ainda aspecto familiar, como ficar incólume vendo-o tomado de assalto em plena luz do dia? A sensação que muitos tiveram era perceptível: algo de errado e grave estava acontecendo e isso podia nos atingir a todos, e talvez fora isso que fizera uma das funcionárias dele sentir-se mal e ser amparada por colegas.
Nos jornais locais do dia seguinte, lê-se que os servidores da Receita Estadual foram trancados no escritório do supermercado, impedidos de sair, talvez por isso, creio, certo tumulto. Não foi explicada a razão de tal evento, não foi admitida a pertubação causada a um estabelecimento que prima pela atmosfera intimista, como prima o São José.