terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Níveo

                         Jovem defendendo-se do Amor, Bouguereau , 1880
Quando nos vimos, não foi a primeira vez que te vi. Tua pele alva, teus cabelos louros, teu rosto anguloso e viril, o corpo firme e másculo, este belo conjunto não passaria despercebido a muitos.
Eu já observara o teu semblante cansado de horas de estudo e de trabalho ininterruptas, das quais desejei ser alento e que, pelo visto, sou.
Eu já vira teus olhos pretos e vívidos descansando na paisagem, absortos, de quando em vez vindo ao encontro dos meus, que se desviavam por temerem a vergonha do desejo flagrado.
Eu já sentira o magnetismo que me impelia a ti quando uma vez roçaste de propósito tua pele na minha revelando o desejo correspondido. Desejo este que prescindia de palavras e que pelos olhos já se revelara (Ah! Bilac! Bem-aventurado o dia em que nasceste, artista supremo!).
Teus olhos falaram e me disseram que era a mim que querias, e que, qual um animal faminto a sentir o cheiro de sangue fresco, tu virias incontido, o olhar ávido e feroz, o passo firme e decidido, fazendo-me fugir assustada.
Mas eu não fugiria sempre, pois tu me farias acreditar nas bênçãos da natureza quando lhe perdoamos a inconstância e lhe concedemos a liberdade de escolha. Tu és meu presente.
A primeira vez que nos vimos, encontramo-nos inteiros, livres e a pleno, consagrando-nos com os mais íntimos momentos de regozijo, graça maior da existência.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Vizinhos


As pessoas de minha família, sobretudo as do lado materno, tendem a ser muito reservadas; com algumas exceções, costumamos nos encerrar em nossa casa ocupando-nos com os assuntos próprios e rotineiros dela. Isso não quer dizer que sejamos egoístas, arrogantes ou soberbos. Não. Apenas fomos educados a cuidar da própria vida e sempre quando possível evitar importunar outrem.
Lembro-me muito bem do dia em que um tio, o irmão caçula de minha mãe, levando-me a uma nova casa de meus pais, aconselhou-me a evitar amizades com os vizinhos. O que alguns podem julgar presunção, julgo como zelo de tio com a sobrinha de 13 anos, proteção a uma jovem cujos sonhos, imaturos e em formação, poderiam ser envenenados por algum vizinho mal intencionado. Já crescida, tal proteção continua, de menor monta, como convém, e baldada, haja vista os transtornos e desilusões por que se passa nessa vida, cuja mais vigilante proteção é incapaz de evitar.
O tempo passou e manteve-se em mim o hábito de reserva. Se me perguntarem hoje o nome de meus vizinhos, sendo dez, acertarei o de um, e acertarei muito. Saio ao trabalho e quando volto no fim do dia encerro-me em casa, ora saindo para regar plantas, ora para botar fora o lixo, momento em que tenho a surpresa de ver e cumprimentar um ou outro sem lhe saber o nome. Meus finais de semana são tão breves que costumo dar conta deles já no fim do domingo.  É sinal de vida atribulada? Talvez. O fato é que não me sinto mal sendo assim, não me sinto solitária e muito menos propensa a desprezar os que se avizinham a mim.  E tanto é verdade isto que digo que alguns dias atrás, quando saía do almoço em casa para ir ao trabalho, fiquei estupefata ao deparar com o apartamento ao lado do meu completamente vazio e aberto, sendo mostrado pelo locatário a um possível morador. Aí residia um casal idoso e muito simpático há um ano e meio se muito. Não sabia muito deles, apenas que talvez não faça nem dois anos que decidiram dividir o teto. Antes disso eu os via esporadicamente, cada qual indo para um andar distinto, no mesmo prédio. Pessoas agradáveis e simpáticas, eles sempre me surpreendiam com trazer-me o jornal antes que eu o buscasse na portaria. Sem falar nas frutas deliciosas de seu sítio com que uma vez ou outra me presenteavam. Vizinhos agradáveis aqueles. Pois bem, o casal de idosos que me presenteava com frutas, com seus cumprimentos quando nos víamos, com sua generosidade em me trazer jornais, com sua presença,  fora embora sem se despedir de mim! É fato que passei vários dias em viagem, o que talvez houvesse impossibilitado um adeus; mas nem um bilhete? Entristeci. Entristecida, senti a dor causada pelo inevitável, pela não-despedida, pela falta de linhas escritas que fossem expressão do carinho que eu sabia sentirem por mim e que eu também sentia por eles, apesar de não nos frequentarmos.
Pensei em coisas que pudessem me confortar, mas nada atingiu esse intento; toda a filosofia existente não me satisfaria naqueles minutos de tristeza quando fui surpreendida com a partida daqueles vizinhos.
Não, não mudei em minhas reservas. E acredito que nesse aspecto difícil será eu ver mudanças; mas, certamente, eu lhes teria escrito um bilhete agradecendo o tempo que passamos juntos; eu lhes teria escrito um bilhete de despedida. 

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Memórias



Rio Itapemirim, foto de Reynaldo Monteiro
 

O ser humano visivelmente se destaca na natureza. O lamentável é que para desenvolver e aprimorar suas particularidades seja necessária uma força de ânimo que insiste em nos fugir. Ela é de suma importância, por exemplo, no conhecimento do passado, porquanto nele está o legado que determina o aqui e agora. Há que se destacar que tal legado foi considerado desprezível por Machado de Assis sem jamais ter sido por ele desprezado.
Recordar lugares remotos que subsistem familiares; sentir aromas que nos provocam sensações tão reais e agradáveis quanto passadas; concatenar imagens e idéias de nossos ascendentes, analisar costumes, o que nos constitui, tudo nos mantém despertos na lida cotidiana. Não que fiquemos livres de dissabores ou que lembranças não sejam também a razão deles, mas temos de admitir que sem tais não vivemos.  Nossas reminiscências são tão inúmeras quanto o agir, e tão diversas quanto diverso é o homem, quanto diversa é a criação.

O dito “Debaixo dos pés de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de muitas gerações que a precederam”, do grande escritor português Alexandre Herculano, é o exemplo cabal de que assim como a construção, a destruição também nos faz notáveis. O alento pode estar em que tais cinzas podem se reconstruir, qual Fênix, por meio do fio condutor da história da humanidade, as ditas memórias.

Quando se pensa em destruição, não há como esquecer a tragédia causada pelas chuvas na região serrana do Rio de Janeiro há pouco. O que ninguém ousaria imaginar é que enchentes motivadas por chuvas constantes poderiam alegrar alguém, poderiam ser sinônimo de entretenimento, poderiam ter já inspirado a criação de um belo texto. E foi o que se deu. As enchentes foram inspiração para o escritor Rubem Braga descrever um de seus prazeres quando criança. A crônica As enchentes de minha infância retrata a imensa felicidade com que o autor via em sua cidade natal, Cachoeiro de Itapemirim, no Norte do Espírito Santo, a subida do Rio Itapemirim, que levava pessoas a se recolherem em sua casa, local seguro que se tornava festivo  por causa desse fenômeno assustador.  

“Sim, nossa casa era muito bonita, verde, com uma tamareira junto à varanda, mas eu invejava os que moravam do outro lado da rua, onde as casas dão fundos para o rio. Como a casa dos Martins, como a casa dos Leão, que depois foi dos Medeiros, depois de nossa tia, casa com varanda fresquinha dando para o rio. Quando começavam as chuvas a gente ia toda manhã lá no quintal deles ver até onde chegara a enchente. As águas barrentas subiam primeiro até a altura da cerca dos fundos, depois às bananeiras, vinham subindo o quintal, entravam pelo porão. Mais de uma vez, no meio da noite, o volume do rio cresceu tanto que a família defronte teve medo. Então vinham todos dormir em nossa casa. Isso para nós era uma festa, aquela faina de arrumar camas nas salas, aquela intimidade improvisada e alegre. Parecia que as pessoas ficavam todas contentes, riam muito;como se fazia café e se tomava café tarde da noite! E às vezes o rio atravessava a rua, entrava pelo nosso porão, e me lembro que nós, os meninos, torcíamos para ele subir mais e mais.Sim, éramos a favor da enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um palmo – aquilo era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim.” (Braga, 1962, p.157)

A infância carece de maturidade e de poder analítico, o que a faz desprezar perigos visíveis; contudo fatos memoráveis não se desprezam. Ela ri e se diverte com o pouco que tem em mãos, o que é muito compreensível à idade e à vida numa cidade interiorana do princípio do século XX. Que novidade maior não seria ver a casa cheia de pessoas rindo pelo simples fato de estarem juntas e seguras? Em “As enchentes de minha infância”, Rubem Braga relata as lembranças de uma infância feliz, constituída de uma ingenuidade que, não obstante tornar-se menos acentuada a cada dia, permanece bela. Pessoas parecerem contentes, nada mais importa. 

O tempo tocou adiante e com ele vieram, infelizmente, os percalços que tornaram o presente bem menos inspirador do que o que viveu esse exímio escritor. O que antes era motivo de felicidade e festa, traduziu-se em infortúnio e desespero. O Rio Itapemirim continua a subir e suas enchentes provocam mazelas cada vez mais vorazes. Enchentes prosseguem desabrigando pessoas aqui e acolá, no Brasil, revelando que a natureza age conforme seus ditames; que não nos falte força de ânimo para aprender a lidar com ela.

Apesar desse aspecto inexorável da vida, é confortador saber que a causa de grandes tragédias foi expressa de forma não só primorosa como de uma sutileza tal que nos faz ter saudades de um tempo que jamais nos pertenceu. Rubem Braga mostrou que o genuíno pode ser comovente, que fatos corriqueiros e cotidianos podem nos propiciar sensações agradáveis e elevadas.  Com o relato de suas memórias, ele tornou a vida mais amena e mostrou o quanto podemos ser melhores do que somos.


Referência:
BRAGA, Rubem. Ai de ti, Copacabana. 3ª ed. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1962.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Caramuru – Uma pequena crônica


Desde os primórdios da humanidade, o homem pesca. Na Bíblia há vários relatos disso e o peixe é o símbolo dos cristãos, inclusive. Para pescar o homem usa barcos (dos mais diversos tamanhos) ou apenas uma vara ou outros apetrechos, e por mais que certas cidades cresçam, há sempre um espaço para realizar essa atividade milenar.

Vitória, capital do Espírito Santo, é um exemplo de cidade que, apesar de urbana e populosa, mantém aqui, ali, ou acolá, em sua costa, pescadores artesanais que nos lembram aqueles da antiguidade, que se preocupavam basicamente com a própria subsistência, concentrando-se nas causas que influenciavam as marés e no tipo de pescado. Há que se observar que a palavra maré tem, curiosamente, tantas acepções quanto o tipo de pesca a que se entrega o homem.

Reflito sobre isso quando recordo um fato ocorrido na Av. Beira-Mar, no Centro de Vitória. Seguia eu tranquila o percurso na calçada, quando estupefata parei diante de uma espécie enorme de lesma a se contorcer próxima a um pescador. Assustada  interpelei-o sobre a horrenda criatura:

- Moço, que é isso?!
- Não tenha medo, não, já dei uma pancada na cabeça dele!
- Mas o que é isso?!
- É um caramuru.
- Por que o senhor não o joga de volta à água?!
- Que isso! é comida! vamos aprontar daqui a pouco.
- Ah! sim, se é comida....

Dei-lhe boa noite e corri a casa, com a viva imagem daquele bicho horroroso, decidida a comprovar seu nome através de pesquisas. O primeiro livro que abri foi o Dicionário Aulete; na procura dei com uma imagem semelhante ao que vira na calçada, porém com o nome de moréia. Fui então ao nome caramuru para ver a definição, ei-la:

CARAMURU, s.m. (Bras.) espécie de grande moréia (Gymnothorax moringua ou Lycodontes moringua), cuja mordedura é perigosa. // Nome que se dava antigamente aos europeus. // Membro do partido político que, sob a chefia de José Bonifácio, pleiteava a restauração de D. Pedro I; camelo. //  Adepto do grupo contrário à declaração da maioridade de D. Pedro II. // (Rio Grande de Sul) Imperialista (membro do partido conservador, no Império). // F. tupi.

Caramuru e moréia são usados como sinônimos no Brasil. Caramuru foi também o apelido dado por índios tupinambás a um navegador português, Diogo Álvares Correia, encontrado nu e coberto de algas, após um naufrágio, no litoral baiano, por volta de 1500, e cujos feitos foram cantados em versos por Frei José de Santa Rita Durão, num poema épico. Como se vê, sua popularidade aqui se estende à História e à Literatura.

Apesar disso, o fato é que a figura do peixe caramuru é sustento para mais de um mês de pesadelo, o que só tende a acentuar a coragem de certos pescadores. Ao pensar em sua importância vária, fico a vê-lo com mais complacência, porém sem querer vê-lo jamais, nem como alimento.

P.S.: Cortesia de imagem da ancestryimages.com.



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011



The Studio Boat, Monet, 1874

À terra provisória

Adeus cimos e vales e veredas,
e bosques e clareiras e campinas
soltas ao vento, sacudindo as crinas
das espigas do sol na luz de seda.

 Adeus troncos e copas e alamedas,
esmeraldas selvagens que as neblinas
salpicavam de prata, adeus colinas
que iam subindo como labaredas

de cobalto no ar... Adeus beleza
irrepetível, que me viu nascer
e toca-me deixar: a natureza

também é feita de deixar de ser,
e eu levo agora a sombra e deixo a presa
à inevitável luz do amanhecer.

Bruno Tolentino

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Montaigne

Montaigne é um dos escritores mais importantes da Renascença. Seus Ensaios foram lançados há mais de três séculos e seria curioso saber quantos o leram, ou quantos na França, seu país de origem. Certamente o número de leitores não faz jus à importância de uma obra. Quantos  bons escritores não permanecem no anonimato? Mas não é o caso de Montaigne, ele é bom e conhecido, mas pouco lido.  A dificuldade de conhecer no Brasil um adulto que tenha lido Montaigne  talvez resida no fato de que ler os clássicos seja um hábito muito pouco difundido entre nós, ao contrário do período em que ele viveu, séc. XVI, das redescobertas dos grandes autores da Antiguidade: Aristóteles, Platão, Sêneca, Epicuro, Plutarco, Ovídio, Petrarca,  entre outros, que consolidaram ideias que sobrevivem ao passar do tempo e que ainda inspiram grandes estudiosos.
Os Ensaios compõem-se de três livros em que Montaigne analisa as ações e os sentimentos dos homens de sua época e da que o antecedeu, tão atuais quanto fossem escritos hoje, algo inimaginável a ele, pois, segundo o que diz, sua preocupação ao escrever era menos agradar ao público que  traçar um retrato fiel de si mesmo, de seu caráter e de suas ideias, aos parentes e amigos, para que não se esquecessem dele quando ele já não fizesse parte desse mundo.  Alguns talvez considerem isso falsa modéstia de criador, porém, seja ou não verdade, o fato é que Montaigne criou uma obra-prima, dada a clareza e a riqueza na exposição de ideias, cujo mérito maior foi ter considerado o homem em si e não nos adornos que o compunham:  É sem dúvida mais bela a harmonia entre fazer e dizer, e não pretendo negar que nesse caso mais autoridade tenham os atos,  e mais eficiência.” (Montaigne, 2000, p.85).
Com o objetivo de mostrar as mais inusitadas facetas humanas e de falar de si mesmo, Montaigne nos expõe uma riqueza de elementos admirável, em poucas páginas veem-se desde regras de viver em sociedade até refinadas análises filosóficas; de costumes dos mais variados povos aos costumes reinantes em sua própria casa, coloridos com as mais diversas personagens sociais, começando por ele próprio: mendigos, nobres, clérigos, romeiros, condenados, bárbaros, belos, feios, alegres, tiranos, canibais, índios, mulheres do povo, nobres, dóceis,  encolerizadas, cortesãs, nada escapou à observação arguta desse grande escritor, nem os bichos, destes há uma bela defesa, inclusive.
Apesar de diferentes, os homens não se distinguem em essência, sentimos frio, fome, tememos a morte, o desconhecido, choramos com a dor, e até a razão que sempre deve guiar também pode perturbar, haja vista sermos imperfeitos, diante disso, como católico, Montaigne recorre também a Deus na busca do melhor caminho da sabedoria, que atenua o sofrimento. Sobre Ele o autor preenche páginas e páginas, nas quais não poupou críticas aos cristãos, aos ateus e até a alguns filósofos, como Platão.  Esse caráter religioso de Montaigne talvez impeça muitos de o lerem, vendo-o com grande desconfiança. Esse preconceito é tão limitador e danoso quanto àquele que impele a separatismos oficiais e merece vivo desprezo, assim como se deve compreender o rigor com que o autor se dirige aos ateus, ainda que se discorde dele.
Apesar da presença religiosa, os escritos de Montaigne são pautados na existência humana, por isso há até quem diga que Deus aparece aí a servir o homem, impropério tamanho. Nem Deus está aí a servir o homem, nem Montaigne serve-se somente de Deus para atingi-lo, não há necessidade disso, a história humana é muito rica para que Montaigne a despreze. E ele não a despreza, daí serem os Ensaios considerados escritos ceticistas, o que não está  longe da verdade:
   Somos vítimas da inconstância, da irresolução, da incerteza, do luto, da superstição, da preocupação com o futuro, inclusive o de depois da morte, da ambição, da avareza, do ciúme, da inveja, dos apetites desregrados e insopitáveis, da guerra, da mentira, da deslealdade, da intriga e da curiosidade. Pagamos, pois, bem caro a tão decantada razão de que nos jactamos, e a faculdade de julgar e conhecer, se a alcançamos, é à custa do número infinito de paixões que nos assaltam sem cessar. (Montaigne, 2000, p.407)
Estamos condenados a ser imperfeitos, porém o grande mérito de Montaigne foi mostrar que, ainda assim, podemos ter uma existência bem vivida, cuja chave está em aprimorar o que há de mais virtuoso em nós apesar de tantos disparates. Com uma escrita exemplar, simples e primorosa, ele teceu o caminho e nos deixou um legado riquíssimo em ensinamentos.
Comete grande equívoco quem pensa que os Ensaios não são de grande valia nos tempos atuais, além dos relatos históricos, das análises filosóficas, sendo o que é, um clássico, sua importância é perene. Se esse argumento não serve de estímulo, que sirva o fato de que Shakespeare inspirou-se neles para compor uma de suas peças (The Tempest), de que Voltaire compôs versos elogiosos ao seu autor, de que Pascal usou seus argumentos, de que Stendhal consultou-os para escrever um tratado sobre o amor, além de inúmeros ensaístas, como o norte-americano Ralph Waldo Emerson, e muitos outros grandes que reconheceram sua importância hoje e sempre.

Referência bibliográfica:
MONTAIGNE, Michel de.  Ensaios. São Paulo : Editora Nova Cultural, 2000. 2 v.   

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Supermercado São José

O supermercado São José é um dos mais tradicionais de Vitória, Espírito Santo. Sua primeira sede consta de 1918, época das mercearias.
Sr. Homero, um dos funcionários mais antigos do Grupo Neffa (proprietário do estabelecimento), hoje aposentado, contou-me uma vez que quando se começou a usar carrinhos para agrupar as compras, os consumidores ficavam meio perdidos porque não sabiam que poderiam dispor de tal para dirigir-se às prateleiras, antes inacessíveis, exigindo assim que o proprietário as orientasse.
Outros supermercados viriam depois e supririam também com satisfação as necessidades mais comezinhas, necessárias ou fúteis de seus habitantes, mas o São José, do Centro de Vitória,  resiste ao tempo e à expansão tão comum atualmente. Isso talvez seja um ponto – ou vários – a  seu favor, pois frequentá-lo é como frequentar  aquelas velhas vendas do interior, com pessoas aglomeradas no balcão, tomando cerveja ou uma pinguinha, ou ambos, em que feijões, arroz e outros, vendidos a granel, compõem a decoração, juntamente com linguiças penduradas.  Remeter-nos a esse espaço é uma das melhores coisas do São José. E tal sensação é a mesma quando se frequenta o restaurante self-service anexo ao hotel do mesmo grupo, Slaviero Slim Alice Vitória; as poltronas, os talheres, os funcionários devidamente uniformizados, tudo alude a um tempo de elegância e simplicidade hoje pouco vistos.
Fico a pensar nisso, quando me recordo o que aconteceu um dia em que eu estava fazendo compras nesse supermercado. Eram meados da tarde, havia pouca gente no estabelecimento e isso despertou-me a atenção, eis que há burburinho e fica-se sabendo que funcionários da Secretaria da Fazenda haviam fechado o estabelecimento para vistorias. Isso não seria de se admirar se não fosse o tom apoteótico do acometimento: impediram-se clientes de entrar no local (e tive temor de nos impedirem de sair!), encerraram-se as atividades dos caixas, fecharam-se as portas.
Não se visa reclamar do poder fiscalizador e regulador do estado. Fazer com que se cumpram contratos é uma de suas  funções mais, digamos, defendidas. O que me chamou a atenção foi o transtorno causado por funcionários públicos que pareciam estar fazendo as vezes de atores televisos. Se o que se admira no São José é o seu ainda aspecto familiar, como ficar incólume vendo-o tomado de assalto em plena luz do dia? A sensação que muitos tiveram era perceptível: algo de errado e grave estava acontecendo e isso podia nos atingir a todos, e talvez fora isso que fizera uma das funcionárias dele sentir-se mal e ser amparada por colegas.
Nos jornais locais do dia seguinte, lê-se que os servidores da Receita Estadual foram trancados no escritório do supermercado, impedidos de sair, talvez por isso, creio, certo tumulto. Não foi explicada  a razão de tal evento, não foi admitida a pertubação causada a um estabelecimento que prima pela atmosfera intimista, como prima o São José.