quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Escola Pública


Menina com livro, Bertha Worms
A Rede Gazeta em seu jornal das 19h, de 14/9/2011, relatou a trajetória de dois alunos de Ensino Médio: um de escola particular, outro de escola pública. O aluno da escola particular estuda o dia inteiro (seis horas pela manhã e mais algumas horas à tarde). O aluno da escola pública trabalha o dia inteiro na lavoura de café e à noite vai para a escola.
Numa das passagens, o jornal mostrou o aluno da escola pública, a qual teve o pior resultado do ENEM, lendo. Foi no mínimo constrangedor ver que,  aos 18 anos, esse aluno lia com muita dificuldade, se é que se pode chamar o que se passou ali de leitura.
Quem se preocupa com o ensino da escola pública logo se pergunta o que está ocorrendo com ela. Como pode um aluno chegar aos 18 anos lendo aos soquinhos,  quase silabicamente? A resposta foi dada num dos quadros apresentados no jornal, que mostrou o professor da escola particular dizendo os métodos utilizados por ela para ter bons alunos: cuidado com o ensino  (com a preparação dos alunos) desde as séries iniciais. Isso nos mostra que a aprendizagem é um processo contínuo que tem de ser abraçado desde sempre com firmeza e determinação por quem se propõe a fazê-lo, o que, pelo visto, não foi propiciado àquele aluno da escola pública.
Trabalhar o dia inteiro e estudar à noite é realidade de muitos alunos do Ensino Médio deste país. Necessita-se, pois, de uma escola que se adapte a essa realidade e busque métodos que levem os alunos a aprender o que lhes é ensinado, desde sempre, desde os primórdios de sua vida escolar.
Eu acredito na escola pública e acredito porque sou fruto de uma escola que me propiciou na antiga 4ª série (uma das séries iniciais do hoje chamado Ensino Fundamental) escrever uma redação cujo tema era “Escravidão”.  No dia da entrega desse texto, minha professora chamou a atenção da turma e fez um elogio a quem o havia escrito. Quando ela disse o meu nome, minha surpresa foi tamanha e foi tamanha porque em minha classe havia muitos outros expoentes, muitos outros alunos que eram capazes de escrever redações como eu. O que diferenciou a minha redação das outras, o que a fez ser elogiada, foi o fato de eu ter tido a ousadia (e certa inteligência) de mostrar que a escravidão não havia findado no séc. XIX, ela ainda persistia em nosso país, através da miséria, da ignorância etc. Quantos de nossos alunos hoje são capazes de tal empreitada?
Infelizmente o que eu mostrei quando criança ainda persiste em existir. Enquanto os que compõem a escola pública não mudarem sua mentalidade quanto aos métodos de ensino, quanto ao desejo de fazer seus alunos de fato aprenderem, perpetuar-se-á a escravidão.   

quinta-feira, 16 de junho de 2011

De profetas...

Os entendidos das coisas do mundo sabem que há poucos nele que não sejam permeados de certa espiritualidade, de certo pendor para coisas intangíveis. A fé existe e de modo tão vário que a explicação de sua existência descamba por vezes num amontoado de razões sem razão. O que dizer, pois, dos que se sentem agraciados com o divino poder de prever o futuro? Diante destes resta-nos o silêncio pio das almas crentes, posto que céticas.
O senhor sicrano da esquina é uma dessas almas. A ele não importa dizer que o futuro não existe, se vê alguém a prevê-lo, rende-lhe devotos pensamentos. Saber do futuro interessa-lhe mais que as preocupações comezinhas do presente, é nele que ele se encontra.
Um dia, chegando a casa no horário habitual, dá-lhe na veneta assistir à televisão. Na novela que passava, havia um profeta. Sua atenção logo foi despertada e os olhos se fixaram na figura do ator a interpretar aquele a quem tantos temem. Que grande ator. O senhor sicrano da esquina passa a acompanhar aquele folhetim televisivo. Como as novelas se inovam, pensava, deram de pôr agora até profetas! O personagem é Miguezim, como é chamado pelo povo do sertão onde mora, suas profecias ocorrem com a ânsia de salvar das agruras do sertão esse mesmo povo. Puxa! que homem bom! que homem sabido!
Cuidado, senhor, não se apegue às aparências. A consciência do senhor sicrano da esquina por vezes o puxava à razão. Emocionar-se é algo valoroso, mas deixar-se levar por piegas emoções pode afrouxar o coração e aí não há quem socorra. Há uma heroína por quem o profeta vela, cujo nome é nome de flor, bela como a coroa que cinge nobres cabeças. O profeta Miguezim venera Açucena, também chamada Aurora, isso toca o coração do senhor diante da tela.  Há um outro profeta. Dois? Sim, dois. Seu nome é Amadeus, é astrólogo e reside num reino distante, provavelmente rodeado de todos os livros e apetrechos que o auxiliam na inspiração de suas profecias. Dois profetas num mesmo folhetim. Isso poderia nos causar certa estranheza, mas no senhor diante da tela causou tal emoção que ele decidiu estudar a vida dos profetas existentes no mundo. Tal empreitada era difícil, posto que requeria tempo e de tempo ele dispunha pouco. Mas a curiosidade fê-lo vencer os obstáculos. Vamos, senhor sicrano da esquina, há um grande caminho pela frente. 
 Comecemos pela Antiguidade Clássica. Como imaginar que num tempo tão longínquo já havia quem se pusesse a prever o futuro? Oh, não, não me venham com ensinamentos; o senhor sicrano da esquina não se ocupava deles, era natural que ficasse supreso ao saber que em épocas tão remotas existiu a Sibila de Cumas,  profetiza que vendeu ao Rei Tarquínio os Livros Sibilinos, muito influentes em Roma. Saber que tal profetiza foi citada por grandes autores clássicos (Virgílio, Ovídio e  Petrônio) ou que em um destes livros havia um prenúncio da vinda de Cristo ao mundo (segundo o Imperador Constantino) não lhe chamou a atenção, mas uma outra coisa sim, e ela diz respeito ao fato de que esse livro não chegou aos tempos modernos porque foi destruído num incêndio. Ah, seres humanos, como a desgraça os atrai... Prossigamos. Dado esse pequeno exemplo da importância de profecias (quantas serviram de guia a reis?) não se vá pensar que a vida dos profetas tenha sido sempre confortável ou fácil. E está aí algo que muito chamou a atenção do senhor sicrano da esquina: muitos profetas durante sua jornada no mundo foram vaiados, enforcados, queimados, tentados até já não lhes restarem forças para levar adiante seu divino dom. Amós foi um deles. Profeta em Israel, no Séc. VIII – VII a. C, teve os dentes arrancados porque, dizia-se, falava demais. Irra! Que povo intolerante! Mas isso, meu caro senhor, não é nada diante do que aconteceu com Isaías, que foi condenado pelo rei Manassés a ter o corpo serrado ao meio. Castigo maior não há, ou há? Certamente há. As malvadezas humanas são infindas, caríssimo. Por vezes, quando um homem grosseiro depara-se com um tipo a falar coisas do futuro que não lhe agradam ou que ele imagina serem o contrário do que está sendo dito, há que se preparar o físico para o sacrifício. Não se iluda.
Hoje seria fácil imaginar que um mundo tão cético de tudo e de todos inibisse a crença em profetas. Sua atenção ao folhetim é prova do contrário. A crença em quem diz prever o futuro resiste ao tempo. E você sabe muito bem disso, pois  leu nos jornais o que aconteceu recentemente em Roma: milhares de romanos abandonaram a cidade com medo de um abalo sísmico previsto numa profecia. Em pleno séc. XXI, e na Europa, pessoas abandonam uma cidade atemorizadas por algo que, com o perdão dos crédulos, provou não valer um atravessar de rua. Sim, todos bem sabemos que o senhor atravessaria um oceano por muito menos. Na Idade Média o horror causado por certas profecias equivalia a um prenúncio de morte iminente. Permita-me discorrer sobre um escrito? Obrigado.
Alexandre Herculano n’O Monge de Cister conta um causo ocorrido com Fernando Afonso, Camareiro-menor do rei D. João I. Tal mancebo tinha o vício de satisfazer os próprios instintos enganando donzelas despercebidas de seu ardil.  Fernando atraía-as e, quando satisfeito, abandonava-as na rua da amargura e do descrédito popular, posto que o povo de Portugal dos idos do séc. XIV não via com bons olhos moça seduzida e abandonada. Apesar de boa estirpe, o Camareiro-menor de D. João I tinha um péssimo caráter e sua consciência era o mais reles livro de moral. Como enfear mais tal retrato? Eis que um belo dia essa índole pervertida teve o desprazer de estar no mesmo ambiente que o profeta Mestre Guedelha, que, além de profeta, era astrólogo, tal qual o Amadeus do folhetim que lhe chamou a atenção. O temível astrólogo Guedelha, após ver a disposição dos astros, profetizou ao Camareiro-menor Fernando Afonso que iria haver uma monstruosa morte de alguém notável.  Bem há de se imaginar qual pessoa notável estava implícita na disposição dos astros. Um dia ele foi pego por seus crimes e pagou com a própria vida numa grande fogueira. Ao encaminhar-se para o triste fim não houve quem não dissesse ao nobre rapaz Lembrai-vos da profecia de Mestre Guedelha!”.
Triste fim dos que fazem os outros sofrerem...
Sim, meu senhor, triste fim, mas uma coisa o senhor há de convir: a despeito de um acerto aqui, outro acolá, ninguém, como diria o bom ditado popular, é profeta em sua terra. Voltemos ao folhetim.  

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ambrosina

"Mãe com seus filhos",  Bouguereau

Mater

Tu, grande Mãe!... do amor de teus filhos escrava,
Para teus filhos és, no caminho da vida,
Como a faixa de luz que o povo hebreu guiava
À longe Terra Prometida.

Jorra de teu olhar um rio luminoso.
Pois, para batizar essas almas em flor,
Deixas cascatear desse olhar carinhoso
Todo o Jordão do teu amor.

E espalham tanto brilho as asas infinitas
Que expandes sobre os teus, carinhosas e belas,
Que o seu grande dano sobe, quando as agitas,
E vai perder-se entre as estrelas.

E eles, pelos degraus da luz ampla e sagrada,
Fogem da humana dor, fogem do humano pé,
E, à procura de Deus, vão subindo essa escada,
Que é como a escada de Jacó.

(Olavo Bilac, in "Poesias" ) 

P. S.: Dedico essa poesia de Olavo Bilac à minha querida mãe, Ambrosina, que aniversaria hoje. Agradeço a Deus todos os dias ser filha de uma pessoa tão valiosa.    

segunda-feira, 28 de março de 2011

Alexandre Herculano

Em 28 de março de 1810 nasceu um dos maiores escritores da língua portuguesa,  o grande Alexandre Herculano.
Grande não só porque teve uma produção literária extensa e profícua, mas porque soube como poucos mostrar numa escrita primorosa as nuanças que levam o homem a tecer seus dias e sua história. Grande não apenas porque galgou o maior patamar a que se pode chegar um escritor, o de ser considerado o maior em sua língua, mas porque soube descrever os tipos mais rasteiros e vulgares encontrados nos maiores vultos sociais e também nos menores, com primor e argúcia. Alexandre Herculano foi grande porque descreveu o homem tal qual é e sempre será, permeado de conflitos e a se equilibrar numa luta inglória entre a aparência e a essência. É o que se vê em “Lendas e Narrativas”, “Eurico”, “O Bobo”, “A Harpa do Crente” e “O Monge de Cister”.
 O leitor diante de tal descrição pode se enfadar e encerrar a leitura com a alegação de que esse escritor está perdido no tempo e que sua leitura não interessa a quem se acostumou às facilidades da escrita moderna. Santa ignorância. Herculano não só não está perdido no tempo, como sua leitura tem muito a contribuir com a capacidade de compreender, de pensar, de avaliar os seres e os fatos que, embora passados, são tão atuais quanto o jornal desta manhã (bela passagem do inesquecível The Ladykillers, de Ethan e Joel Cohen). 
Ao lembrar a aversão aos escritores antigos, aproveito para fazer uma pequena digressão e narrar dois fatos ocorridos em meus tempos de faculdade. Andava eu pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), numa fria tarde de agosto, com um belo exemplar de Fausto, de Goethe, traduzido por Castilho, quando encontrei um professor de Literatura do curso de Letras. Não contendo minha felicidade mostrei-lhe o presente que acabara de ganhar:
- Veja, é um Fausto, traduzido por Castilho, recebi há pouco de presente.
Qual não foi a minha surpresa quando obtive como resposta um riso sarcástico e o seguinte dizer:
-Você ainda lê isso?! Meu Deus!
Não tive outra alternativa a não ser dizer “Sim, leio”, e me resignar à insignificância de ler Fausto, de Goethe, traduzido por Castilho. Confesso que me arrependi de não perguntar se a surpresa do professor se aplicava ao escrito de Goethe ou à tradução de Castilho. Talvez fosse melhor não saber.
Num outro dia, estava eu conversando com uma amiga, por MSN, quando quis-lhe mostrar um poema que havia acabado de ler. Era uma composição de Almeida Garrett   e versava sobre alguém incapaz de corresponder a um amor. Achando curioso tal mote quis mostrá-lo, ao que fui impedida com o seguinte argumento:
 -Não, não me mostre esses autores difíceis!
Isso não me causaria surpresa se a pessoa em questão não fosse uma escritora, bem afamada na época por sinal. Pelo visto, temos professores e escritores que põem os escritores antigos (considerados obsoletos ou difíceis) na parte mais desprezada de sua estante, quando os possuem nela. Não há, pois, como não entender os jovens hoje estarem tão distantes deles.
É confortante saber que podemos nos consolar com Adler  que diz em sua bela obra Como Ler Livros  que “nos tempos modernos, sob a influência do estilo tipicamente jornalístico, a maioria dos autores assumiu a tendência de escrever parágrafos curtos e fáceis de ler”. Ou seja, diante do estilo jornalístico, só nos resta compreender (ainda que lamentando) o  porquê de Alexandre Herculano, de Garrett e de Castilho estarem legados às traças.  Isso não deixa de ser lastimável, porque se houvesse um pouco de paciência e método (e Adler está aí para auxiliar a quem precisa) se usufruiria o que há de melhor na elaboração e na expressão de idéias, tanto quanto se usufrui a leitura de bons escritores dos tempos modernos.
Voltemos a Herculano.
Considerado o primeiro autor a cultivar o romance histórico em Portugal, Alexandre Herculano o fez com uma primazia tal que revelou seu estudo prévio e escrupuloso dos fatos, misturando-os a personagens fictícios que conduzem magistralmente o fio principal de sua narrativa. É o que, por exemplo, ocorre em O Bobo, romance que narra a luta entre o infante D. Afonso Henriques e sua mãe, D. Teresa:

Se D. Teresa se mostrara na viuvez digna politicamente do marido, o filho era digno de ambos. O tempo provou que os excedia em perseverança e audácia. A natureza dera-lhe as formas atléticas e o valor indomável de um desses heróis dos antigos romances de cavalaria, cujos dotes extraordinários os trovadores exageravam mais ou menos nas lendas e poemas, mas que eram copiados da existência real. Tal fora o Cid. Os amores adúlteros de D. Teresa com o Conde de Trava, Fernando Peres, fizeram com que cedo se manifestassem as aspirações do moço Afonso Henriques. (O Bobo, pag.8)

O melhor desse livro não está nas conturbadas relações entre mãe, filho e todos os demais que participam de sua intimidade, mas no bobo ou truão, personagem que deixa a todos atônitos quando aparece e que dá título à obra. A mestria de Herculano revela-se soberba ao falar desse  personagem singular:

O leitor que não conhecesse por dentro e por fora, como se usa dizer, a vida da Idade Média, riria da pequice com que atribuímos valor político ao bobo do Conde de Portugal. Pois o caso não é de rir. Naquela época o cargo de truão correspondia até certo ponto ao dos censores da República Romana. Muitas paixões, sobre as quais a civilização estampou o ferrete de ignóbeis, ainda não eram hipócritas: porque a hipocrisia foi o magnífico resultado que a civilização tirou de sua sentença. Os ódios e as vinganças eram lealmente ferozes, a dissolução sincera, a tirania sem miséria. No século XVI Filipe II envenenava seu filho nas trevas de um calabouço: no princípio do XIII Sancho I de Portugal arrancando os olhos aos clérigos de Coimbra, que recusavam celebrar os ofícios divinos nas igrejas interditas, chamava para testemunhas daquele feito todos os parentes das vítimas. Filipe era um parricida polidamente covarde; Sancho um selvagem atrozmente vingativo. Entre os dous príncipes há quatro séculos nas distâncias do tempo e o infinito nas distâncias morais. [...] O novo bufão do Conde Henrique, ao começar os graves estudos e as dificultosas experiências de que carecia para preencher dignamente o seu cargo, teve a feliz inspiração de associar algumas doutrinas cavaleirosas com os mais prosaicos elementos da chocarrice fidalga.  Na torrente dos desvarios, quando mais violento derramava em roda de si a lava ardente dos ditos insultuosos e cruéis, nunca dos lábios lhe saiu palavra que fosse despedaçar a alma de uma dama. Dom Bibas [o truão] debaixo da cruz da sua espada de lenho sentia bater um coração de português, português da boa raça dos godos. Suponde o mais humilde dos homens; suponde a mais nobre, a mais altiva mulher; que esse homem a salpique do lodo da injúria, e será tão infame e covarde como o poderoso entre os poderosos, que insultasse a donzela inocente e desvalida. E por quê? Porque um tal feito sai fora das raias da humanidade: não o praticam homens: não o julgam as leis: julga-o a consciência como um impossível moral, como um ato bestial e monstruoso. Para aquele que usa de semelhante feridade, nunca luziu, nunca luzirá no mundo um raio de poesia? E há aí alguém a quem não sorrisse uma vez, ao menos, esta filha do Céu? Dom Bibas não pensava nisso; mas sentia-o, tinha-o no sangue das veias. Daqui a sua influência; daqui o gasalhado, o carinho, o amor, com que donas e donzelas tratavam o pobre truão. Quando contra este indivíduo, fraco e ao mesmo tempo terror e flagelo dos fortes, se alevantava alguma grande cólera, alguma vingança implacável, ele tinha um asilo seguro onde iam quebrar em vão todas as tempestades: era o bastidor, à roda do qual as nobres damas daqueles tempos matavam as horas tediosas do dia, bordando na reforçada tela com fios de mil cores histórias de guerras ou folguedos de paz. Ali Dom Bibas agachado, enovelado, sumido, desafiava o seu furioso agressor, que muitas vezes saía malferido daquele combate desigual, em que o bobo se cobria das armas mais temidas de um nobre cavaleiro, a proteção das formosas.  (O Bobo, pág. 21)

Quinta onde Herculando passou seus últimos dias.
É com esse estilo vigoroso e com uma linguagem considerada pura, que Herculano nos vai descrevendo a rotina bastarda de nobres, clero, burgueses, pessoas do povo, pessoas de uma época considerada passada, pelos anos, e presente, pela índole humana que jamais mudará enquanto a Terra for o que é. O que mais importa na leitura de seus textos não é, pois, conhecer o que já é de todos sabido, mas a forma como isso se manifesta. O bom escritor sobressai-se pelo primor de seu texto, revelado no colorido de sua linguagem, na unidade de suas passagens, na força de seus argumentos, no respeito à língua que o originou. Herculano, além de nos presentear com todos esses atributos, ainda nos deixa de legado um conteúdo histórico enredado de modo que nos faz recordar grandes obras cinematográficas. Ler Herculano é como estar diante de um grande filme romanesco. Suas descrições são roteiros seguros a quem se guia pela imaginação; elas nos fornecem os elementos necessários à visualização de imagens tão claras que nos vemos parte delas. Assim, a grandeza maior de seus escritos está em revelar ao espírito humano a construção que o permite alçar voos cada vez maiores. Voo que de certo alçou o espírito do próprio Herculano, quando num mês de setembro disse as últimas palavras de sua vida: 
- Abram as janelas. Quero ver as árvores.
  

Referência
HERCULANO, Alexandre. O bobo. Ed. W.M.Jackson.       



quarta-feira, 16 de março de 2011

O Japão de Hokusai e de outros luminares

A Grande Onda de Kanagawa, Hokusai, 1830
O Japão viu-se assolado pelas contingências inevitáveis do destino. Num curto espaço de tempo, esse país sofreu as agruras de um terremoto, de um maremoto e de problemas oriundos  do uso de energia nuclear.  A catástrofe foi tamanha: ferrovias, portos, linhas de transmissão de energia e sistemas de abastecimento de água destruídos, comunidades inteiras aniquiladas, quilômetros de costa devastados. A reconstrução será lenta e exigirá do povo japonês uma resiliência fenomenal para superar por anos o que a natureza destruiu em horas.  
Ao olhar o Japão hoje, vêm-nos imediatamente à cabeça os versos do grande poeta português:

No mar tanta tormenta e tanto dano
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida
Que não se arme e indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
(Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas)

Como forma talvez de sublimar a desgraça e por ter a fortuna de estar distante de tão desolado quadro, ocorre-nos lembrar alguns grandes artistas que eternizaram com suas obras as belezas desse país. Paul Johnson, um dos grandes historiadores vivos, afirma em seu livro Os Criadores (Elsevier, 2006) que  “Todos os indivíduos criativos baseiam-se no trabalho de seus antecessores. Ninguém cria no vácuo. Todas as civilizações evoluem de sociedades anteriores.”  Ao pensar nos grandes criadores japoneses não há como passar despercebido pelo profícuo e talentoso Hokusai e por suas pinturas da paisagem japonesa. Filho adotivo de um fabricante de espelho, pobre e começando a desenhar desde criança, Hokusai, além da flora e da fauna, retratou a vida japonesa de meados do séc. XIX com invejável habilidade. Nasceu pintor e morreu pintor e não consta que quisesse fazer outra coisa. Aos 83 anos, julgava que só chegaria ao estado superior de arte quando completasse 100 anos e que quando tivesse 110 cada traço seu teria vida. O fato é que seu apuro não precisou de tantos anos para se mostrar, veio logo e, se não chegou à perfeição, chegou a algo bem próximo a ela.
Perfeccionista e excêntrico, o que ele considerava algo libertador, ousou ir além de seus contemporâneos pintando nuvens (até então só se pintavam névoas) e depois misturando-as às névoas, chegando a uma síntese que agradaria a europeus, a americanos e aos próprios japoneses. As pontes eram sua paixão. Inúmeras delas foram pintadas, nos mais diversos ângulos. A imagem poética de seus desenhos fez com que eles servissem também de ilustração a muitos livros de poesia.
Hoje, séc. XXI, vemos a obra de Hokusai ser buscada por pessoas que talvez nunca lhe tenham ouvido o nome. Os Mangá (“desenhos aleatórios”) são frutos de um projeto de Hokusai de ensinar desenho a japoneses de classe média e de classe média baixa. Os desenhos instrutivos eram desenvolvidos por seus alunos e posteriormente organizados em volumes (15 ao todo). Segundo Paul Johnson, os Mangá constituem uma das maiores compilações artísticas já produzidas – ao todo mais de quarenta mil imagens, cuja variedade de tópicos é considerada única na arte, muitas das instruções aí contidas são úteis até hoje: desenhos de aves aquáticas, de íris (sua flor predileta), de bois, de cavalos, de lenhadores, de chuvas (sua especialidade, talvez porque muito comum nesse país), de pessoas, serviram – e ainda servem- de instrução aos mais diversos aprendizes.  Hokusai também produziu desenhos que serviam ao seu puro deleite. As gravuras eróticas, shunga, foram produzidas por ele ao longo da vida; uma pescadora de pérolas sendo satisfeita por dois polvos é a mais famosa por seu poder imaginativo. As melhores estão reunidas no livro Nami Chiduri.  E foi assim, trabalhando, que Hokusai encerrou seus dias aos 99 anos.

A pintura foi uma grande paixão do cineasta Akira Kurosawa e o acompanhou durante toda a sua trajetória no cinema. Consta que ele pintava quadros como "storyboards" de seus filmes. Sonhos (Yume) é um grande exemplo dessa paixão. Baseado em sonhos que o cineasta teve, o colorido e a fotografia desse filme são de uma beleza impressionante, típica de belos quadros. Após muitos desafios enfrentados - o  suicídio de um irmão ainda jovem; uma estafa mental, que fez com que ele também tentasse se suicidar inúmeras vezes – Kurosawa aos 80 anos realizou a sua obra preferida, o filme Ran, cujo roteiro foi inspirado na peça Rei Lear, de Shakespeare, morreu oito anos depois deixando uma extensa filmografia, que o fez obter o reconhecimento do público e da crítica. É certo que há inúmeros cineastas japoneses talentosos, em 2008, os 100 anos da imigração japonesa foram comemorados com uma mostra de cinema em que tais talentos foram mostrados; mas, além de talentoso, o mérito de Kurosawa está em ter sido responsável por fazer o cinema japonês ser conhecido no mundo, além disso, boa parte de seus trabalhos chegaram antes ao Brasil que à Europa ou aos Estados Unidos.

O Brasil abriga uma grande colônia japonesa, no bairro Liberdade, em São Paulo.  Dada a familiaridade que se tem com essa cultura, são poucos os brasileiros que não conhecem coisas tais como judô, origami, sushi, sashimi, yakissoba, ikebana, bonsai, gueixas, as quais inspiram marmanjos aqui e mundo afora, e os famosos poemas Haikai.  Tudo isso e muito mais ilustram o quão esse povo é rico e o quão é lamentável ver a desolação por que passa o Japão atualmente. Que os japoneses façam jus ao provérbio popular de seu país:  Cai sete vezes e levanta oito (Nana Korobi, Ya oki) e que o Japão se reconstrua o mais breve possível. 

terça-feira, 8 de março de 2011

A farta


Quadro de Heitor dos Prazeres
Reunir-se em festas é uma grande peculiaridade humana. Desde a Antiguidade reverenciam-se crenças com alguma espécie de comemoração, seja com  banquetes, seja com músicas, com danças, com fantasias, seja com o que for que simbolize alegria e reconhecimento.
Na Antiguidade Clássica tais festas se davam pelos mais diversos motivos, ora celebrando os vivos (Festas Sotérias), ora venerando os mortos (Festas Parentais), e em prol da maioria dos deuses.
Na Idade Média não foi diferente. Festejar era uma prática constante do homem medieval. Quem é afeito à cultura alemã, por exemplo, conhece as Kirmes, festas medievais alemãs em que se comemorava a construção de uma nova igreja. Hoje tais festas perderam o teor religioso, mas comemorar algo persiste no espírito delas. Nas áreas de colonização alemã, o termo Kerb é o mais usado para designar essas festas que sobreviveram a séculos de mudanças sociais e comportamentais.
Há mais de dois mil anos, na China, um famoso poeta, Qu Yuan,  vendo seu povo ser dominado por inimigos decidiu por fim à própria vida jogando-se no rio Mi Luo. O povo chinês viu nisso uma grande prova de patriotismo e decidiu reverenciá-lo. Todos os anos desde então é feita uma festa em que se come pamonha (comumente feita com arroz) e se passeia por um rio com um barco em forma de dragão, eis a Festa do Barco-Dragão (ou Festa da Pamonha). Se fôssemos nos estender, veríamos que cada povo tem um apreço a festejos,  que foge a qualquer controle de governos. Isso nos faz lembrar o que acontece atualmente no Irã: sabe-se que a bebida alcoólica é proibida aí desde 1970, ano da revolução islâmica, porém isso não impediu os iranianos de fabricarem sua própria bebida. Consta que há alambiques nos porões de algumas casas iranianas. Ou seja, por mais que imaginemos que o povo iraniano, oprimido, não se divirta, tais alambiques são garantia certa de alguma comemoração.  

Entrudo
Com o correr do tempo, o Brasil não ficou para trás. O Carnaval é exemplo de uma de nossas festas mais populares e também uma das mais antigas. Sinônimo de Entrudo, o carnaval a princípio se desenrolava em perfeita desarmonia. Machado de Assis, em crônica de 1893, relata as peripécias contra cidadãos que, distraídos, recebiam limões de cera (ou limões-de-cheiro) na fuça: “Eram tinas d'água, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam à força um cidadão todo, — chapéu, dignidade e botas. Eram seringas de lata; eram limões de cera.” (A Semana, 1893)      Há registros de que D. Pedro I adorava participar dessas comemorações lançando também seu limão-de-cheiro. Mas como toda a ação provoca uma reação, um dia a atriz Estela Sezefredo achou-se no direito de lançar-lhe também um limão-de-cheiro na testa, pelo qual foi imediatamente presa.  Intolerâncias à parte, desses burburinhos populares aqui e acolá surgiriam os grandes carnavais. A primeira escola de samba do Rio de Janeiro data de 1928, décadas depois surgiriam o Sambódromo e a Cidade do Samba e seus desfiles apoteóticos.
Carnaval antigo

Engana-se quem pensa que o Carnaval brasileiro dos primórdios restringiu-se ao Rio de Janeiro. Em Vitória, Espírito Santo, tais festejos eram também comuns, com os característicos próprios de uma  cidade pacata e provinciana de meados do século XIX. Havia aí, qual no Rio, os embates com limão-de-cheiro, com bisnagas, com  lança-perfumes. Eram esperados os desfiles dos abonados com suas fantasias importadas de Paris e os bailes à fantasia, dos quais surigiriam os primeiros blocos, entre eles o Está Cruel, denominação curiosa originária de um ditado popular. Havia ainda uma espécie de sincretismo musical, em que se dançavam,  junto com sambas e marchinhas, congo e escambau, precursor da lambada, ritmo surgido da década de 1970 no Pará. O carnaval em Vitória iniciava-se na Praça Oito e ia até a Vila Rubim, comandado por João Capuchinho, serrano e grande incentivador da folia popular. Em meio à crise da Revolução de 1929 romperam nessa cidade os grupos de batucada, dos quais algumas décadas depois se originariam as escolas de samba capixabas, sendo a primeira a Unidos da Piedade, organizada por Rominho da Fonte Grande.  A União das Batucadas, espécie de ordenação desses grupos, chegou a reunir mais de 10 grupos de batucada: Centenário, Santa Lúcia, Mocidade da Praia, São Torquato entre outros. Os instrumentos usados eram os de corda e os de percussão, com destaque para o cavaquinho e para o banjo, a animar a folia no Espírito Santo há  no mínimo 70 anos atrás. Tal história nos é relatada pelo folclorista Hermógenes Lima Fonseca, com detalhes pitorescos (pelos quais, por exemplo, ficamos sabendo da numerosa família Nascimento, moradores da Capixaba e grandes festeiros). Seu texto O Carnaval Capixaba nos informa tudo (embora tenha pecado um pouco na enumeração das datas) de que precisamos saber sobre como o capixaba se assemelha aos indivíduos de outros povos no apreço às festas populares.
Diante de tão diferentes relatos – e poderiam ser muito mais diferentes! – é curioso observar como as críticas às festas populares são cada vez  mais acirradas. É certo que a turba costuma ser barulhenta, porém velho adágio popular existe não à toa: os incomodados que se mudem. E muitos de nós incomodados nos recolhemos nessas datas festivas. Porém alegar que o apreço por jogos, o apreço por teatros, por animais estranhos, por lutas massacrantes, são frutos de um intuito que visa desviar a atenção de  um povo para o que é mais importante, tanto economicamente quanto politicamente, é desconhecer sua índole mais genuína. Imaginar que se abusa dessa índole talvez seja mais plausível - e esse abuso  deve ser vivamente combatido e criticado.   Lamentável  ainda é supor que os indivíduos de um povo não se divertem espontaneamente ou que talvez negassem teatros,  jogos, farsas, espetáculos os mais bizarros, quanto mais críticos fossem ou mais intelectualizados.  Doce ilusão. Seja traçado um histórico das festas populares e se verá que elas atraem o ser humano como a luz atrai os insetos à medida que é reluzente.  É natural essa atração. Pessoas não são insetos, nem as festas são luminosas dias a fio.  Um dia elas voltarão para casa e  sofrerão os efeitos do espírito em euforia, mas até que isso aconteça, estejam no ofício ou no lugar em que estiverem, tais indivíduos aproveitarão as festividades a farta.  


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Níveo

                         Jovem defendendo-se do Amor, Bouguereau , 1880
Quando nos vimos, não foi a primeira vez que te vi. Tua pele alva, teus cabelos louros, teu rosto anguloso e viril, o corpo firme e másculo, este belo conjunto não passaria despercebido a muitos.
Eu já observara o teu semblante cansado de horas de estudo e de trabalho ininterruptas, das quais desejei ser alento e que, pelo visto, sou.
Eu já vira teus olhos pretos e vívidos descansando na paisagem, absortos, de quando em vez vindo ao encontro dos meus, que se desviavam por temerem a vergonha do desejo flagrado.
Eu já sentira o magnetismo que me impelia a ti quando uma vez roçaste de propósito tua pele na minha revelando o desejo correspondido. Desejo este que prescindia de palavras e que pelos olhos já se revelara (Ah! Bilac! Bem-aventurado o dia em que nasceste, artista supremo!).
Teus olhos falaram e me disseram que era a mim que querias, e que, qual um animal faminto a sentir o cheiro de sangue fresco, tu virias incontido, o olhar ávido e feroz, o passo firme e decidido, fazendo-me fugir assustada.
Mas eu não fugiria sempre, pois tu me farias acreditar nas bênçãos da natureza quando lhe perdoamos a inconstância e lhe concedemos a liberdade de escolha. Tu és meu presente.
A primeira vez que nos vimos, encontramo-nos inteiros, livres e a pleno, consagrando-nos com os mais íntimos momentos de regozijo, graça maior da existência.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Vizinhos


As pessoas de minha família, sobretudo as do lado materno, tendem a ser muito reservadas; com algumas exceções, costumamos nos encerrar em nossa casa ocupando-nos com os assuntos próprios e rotineiros dela. Isso não quer dizer que sejamos egoístas, arrogantes ou soberbos. Não. Apenas fomos educados a cuidar da própria vida e sempre quando possível evitar importunar outrem.
Lembro-me muito bem do dia em que um tio, o irmão caçula de minha mãe, levando-me a uma nova casa de meus pais, aconselhou-me a evitar amizades com os vizinhos. O que alguns podem julgar presunção, julgo como zelo de tio com a sobrinha de 13 anos, proteção a uma jovem cujos sonhos, imaturos e em formação, poderiam ser envenenados por algum vizinho mal intencionado. Já crescida, tal proteção continua, de menor monta, como convém, e baldada, haja vista os transtornos e desilusões por que se passa nessa vida, cuja mais vigilante proteção é incapaz de evitar.
O tempo passou e manteve-se em mim o hábito de reserva. Se me perguntarem hoje o nome de meus vizinhos, sendo dez, acertarei o de um, e acertarei muito. Saio ao trabalho e quando volto no fim do dia encerro-me em casa, ora saindo para regar plantas, ora para botar fora o lixo, momento em que tenho a surpresa de ver e cumprimentar um ou outro sem lhe saber o nome. Meus finais de semana são tão breves que costumo dar conta deles já no fim do domingo.  É sinal de vida atribulada? Talvez. O fato é que não me sinto mal sendo assim, não me sinto solitária e muito menos propensa a desprezar os que se avizinham a mim.  E tanto é verdade isto que digo que alguns dias atrás, quando saía do almoço em casa para ir ao trabalho, fiquei estupefata ao deparar com o apartamento ao lado do meu completamente vazio e aberto, sendo mostrado pelo locatário a um possível morador. Aí residia um casal idoso e muito simpático há um ano e meio se muito. Não sabia muito deles, apenas que talvez não faça nem dois anos que decidiram dividir o teto. Antes disso eu os via esporadicamente, cada qual indo para um andar distinto, no mesmo prédio. Pessoas agradáveis e simpáticas, eles sempre me surpreendiam com trazer-me o jornal antes que eu o buscasse na portaria. Sem falar nas frutas deliciosas de seu sítio com que uma vez ou outra me presenteavam. Vizinhos agradáveis aqueles. Pois bem, o casal de idosos que me presenteava com frutas, com seus cumprimentos quando nos víamos, com sua generosidade em me trazer jornais, com sua presença,  fora embora sem se despedir de mim! É fato que passei vários dias em viagem, o que talvez houvesse impossibilitado um adeus; mas nem um bilhete? Entristeci. Entristecida, senti a dor causada pelo inevitável, pela não-despedida, pela falta de linhas escritas que fossem expressão do carinho que eu sabia sentirem por mim e que eu também sentia por eles, apesar de não nos frequentarmos.
Pensei em coisas que pudessem me confortar, mas nada atingiu esse intento; toda a filosofia existente não me satisfaria naqueles minutos de tristeza quando fui surpreendida com a partida daqueles vizinhos.
Não, não mudei em minhas reservas. E acredito que nesse aspecto difícil será eu ver mudanças; mas, certamente, eu lhes teria escrito um bilhete agradecendo o tempo que passamos juntos; eu lhes teria escrito um bilhete de despedida. 

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Memórias



Rio Itapemirim, foto de Reynaldo Monteiro
 

O ser humano visivelmente se destaca na natureza. O lamentável é que para desenvolver e aprimorar suas particularidades seja necessária uma força de ânimo que insiste em nos fugir. Ela é de suma importância, por exemplo, no conhecimento do passado, porquanto nele está o legado que determina o aqui e agora. Há que se destacar que tal legado foi considerado desprezível por Machado de Assis sem jamais ter sido por ele desprezado.
Recordar lugares remotos que subsistem familiares; sentir aromas que nos provocam sensações tão reais e agradáveis quanto passadas; concatenar imagens e idéias de nossos ascendentes, analisar costumes, o que nos constitui, tudo nos mantém despertos na lida cotidiana. Não que fiquemos livres de dissabores ou que lembranças não sejam também a razão deles, mas temos de admitir que sem tais não vivemos.  Nossas reminiscências são tão inúmeras quanto o agir, e tão diversas quanto diverso é o homem, quanto diversa é a criação.

O dito “Debaixo dos pés de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de muitas gerações que a precederam”, do grande escritor português Alexandre Herculano, é o exemplo cabal de que assim como a construção, a destruição também nos faz notáveis. O alento pode estar em que tais cinzas podem se reconstruir, qual Fênix, por meio do fio condutor da história da humanidade, as ditas memórias.

Quando se pensa em destruição, não há como esquecer a tragédia causada pelas chuvas na região serrana do Rio de Janeiro há pouco. O que ninguém ousaria imaginar é que enchentes motivadas por chuvas constantes poderiam alegrar alguém, poderiam ser sinônimo de entretenimento, poderiam ter já inspirado a criação de um belo texto. E foi o que se deu. As enchentes foram inspiração para o escritor Rubem Braga descrever um de seus prazeres quando criança. A crônica As enchentes de minha infância retrata a imensa felicidade com que o autor via em sua cidade natal, Cachoeiro de Itapemirim, no Norte do Espírito Santo, a subida do Rio Itapemirim, que levava pessoas a se recolherem em sua casa, local seguro que se tornava festivo  por causa desse fenômeno assustador.  

“Sim, nossa casa era muito bonita, verde, com uma tamareira junto à varanda, mas eu invejava os que moravam do outro lado da rua, onde as casas dão fundos para o rio. Como a casa dos Martins, como a casa dos Leão, que depois foi dos Medeiros, depois de nossa tia, casa com varanda fresquinha dando para o rio. Quando começavam as chuvas a gente ia toda manhã lá no quintal deles ver até onde chegara a enchente. As águas barrentas subiam primeiro até a altura da cerca dos fundos, depois às bananeiras, vinham subindo o quintal, entravam pelo porão. Mais de uma vez, no meio da noite, o volume do rio cresceu tanto que a família defronte teve medo. Então vinham todos dormir em nossa casa. Isso para nós era uma festa, aquela faina de arrumar camas nas salas, aquela intimidade improvisada e alegre. Parecia que as pessoas ficavam todas contentes, riam muito;como se fazia café e se tomava café tarde da noite! E às vezes o rio atravessava a rua, entrava pelo nosso porão, e me lembro que nós, os meninos, torcíamos para ele subir mais e mais.Sim, éramos a favor da enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um palmo – aquilo era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim.” (Braga, 1962, p.157)

A infância carece de maturidade e de poder analítico, o que a faz desprezar perigos visíveis; contudo fatos memoráveis não se desprezam. Ela ri e se diverte com o pouco que tem em mãos, o que é muito compreensível à idade e à vida numa cidade interiorana do princípio do século XX. Que novidade maior não seria ver a casa cheia de pessoas rindo pelo simples fato de estarem juntas e seguras? Em “As enchentes de minha infância”, Rubem Braga relata as lembranças de uma infância feliz, constituída de uma ingenuidade que, não obstante tornar-se menos acentuada a cada dia, permanece bela. Pessoas parecerem contentes, nada mais importa. 

O tempo tocou adiante e com ele vieram, infelizmente, os percalços que tornaram o presente bem menos inspirador do que o que viveu esse exímio escritor. O que antes era motivo de felicidade e festa, traduziu-se em infortúnio e desespero. O Rio Itapemirim continua a subir e suas enchentes provocam mazelas cada vez mais vorazes. Enchentes prosseguem desabrigando pessoas aqui e acolá, no Brasil, revelando que a natureza age conforme seus ditames; que não nos falte força de ânimo para aprender a lidar com ela.

Apesar desse aspecto inexorável da vida, é confortador saber que a causa de grandes tragédias foi expressa de forma não só primorosa como de uma sutileza tal que nos faz ter saudades de um tempo que jamais nos pertenceu. Rubem Braga mostrou que o genuíno pode ser comovente, que fatos corriqueiros e cotidianos podem nos propiciar sensações agradáveis e elevadas.  Com o relato de suas memórias, ele tornou a vida mais amena e mostrou o quanto podemos ser melhores do que somos.


Referência:
BRAGA, Rubem. Ai de ti, Copacabana. 3ª ed. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1962.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Caramuru – Uma pequena crônica


Desde os primórdios da humanidade, o homem pesca. Na Bíblia há vários relatos disso e o peixe é o símbolo dos cristãos, inclusive. Para pescar o homem usa barcos (dos mais diversos tamanhos) ou apenas uma vara ou outros apetrechos, e por mais que certas cidades cresçam, há sempre um espaço para realizar essa atividade milenar.

Vitória, capital do Espírito Santo, é um exemplo de cidade que, apesar de urbana e populosa, mantém aqui, ali, ou acolá, em sua costa, pescadores artesanais que nos lembram aqueles da antiguidade, que se preocupavam basicamente com a própria subsistência, concentrando-se nas causas que influenciavam as marés e no tipo de pescado. Há que se observar que a palavra maré tem, curiosamente, tantas acepções quanto o tipo de pesca a que se entrega o homem.

Reflito sobre isso quando recordo um fato ocorrido na Av. Beira-Mar, no Centro de Vitória. Seguia eu tranquila o percurso na calçada, quando estupefata parei diante de uma espécie enorme de lesma a se contorcer próxima a um pescador. Assustada  interpelei-o sobre a horrenda criatura:

- Moço, que é isso?!
- Não tenha medo, não, já dei uma pancada na cabeça dele!
- Mas o que é isso?!
- É um caramuru.
- Por que o senhor não o joga de volta à água?!
- Que isso! é comida! vamos aprontar daqui a pouco.
- Ah! sim, se é comida....

Dei-lhe boa noite e corri a casa, com a viva imagem daquele bicho horroroso, decidida a comprovar seu nome através de pesquisas. O primeiro livro que abri foi o Dicionário Aulete; na procura dei com uma imagem semelhante ao que vira na calçada, porém com o nome de moréia. Fui então ao nome caramuru para ver a definição, ei-la:

CARAMURU, s.m. (Bras.) espécie de grande moréia (Gymnothorax moringua ou Lycodontes moringua), cuja mordedura é perigosa. // Nome que se dava antigamente aos europeus. // Membro do partido político que, sob a chefia de José Bonifácio, pleiteava a restauração de D. Pedro I; camelo. //  Adepto do grupo contrário à declaração da maioridade de D. Pedro II. // (Rio Grande de Sul) Imperialista (membro do partido conservador, no Império). // F. tupi.

Caramuru e moréia são usados como sinônimos no Brasil. Caramuru foi também o apelido dado por índios tupinambás a um navegador português, Diogo Álvares Correia, encontrado nu e coberto de algas, após um naufrágio, no litoral baiano, por volta de 1500, e cujos feitos foram cantados em versos por Frei José de Santa Rita Durão, num poema épico. Como se vê, sua popularidade aqui se estende à História e à Literatura.

Apesar disso, o fato é que a figura do peixe caramuru é sustento para mais de um mês de pesadelo, o que só tende a acentuar a coragem de certos pescadores. Ao pensar em sua importância vária, fico a vê-lo com mais complacência, porém sem querer vê-lo jamais, nem como alimento.

P.S.: Cortesia de imagem da ancestryimages.com.



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011



The Studio Boat, Monet, 1874

À terra provisória

Adeus cimos e vales e veredas,
e bosques e clareiras e campinas
soltas ao vento, sacudindo as crinas
das espigas do sol na luz de seda.

 Adeus troncos e copas e alamedas,
esmeraldas selvagens que as neblinas
salpicavam de prata, adeus colinas
que iam subindo como labaredas

de cobalto no ar... Adeus beleza
irrepetível, que me viu nascer
e toca-me deixar: a natureza

também é feita de deixar de ser,
e eu levo agora a sombra e deixo a presa
à inevitável luz do amanhecer.

Bruno Tolentino