Em 28 de março de 1810 nasceu um dos maiores escritores da língua portuguesa, o grande Alexandre Herculano. Grande não só porque teve uma produção literária extensa e profícua, mas porque soube como poucos mostrar numa escrita primorosa as nuanças que levam o homem a tecer seus dias e sua história. Grande não apenas porque galgou o maior patamar a que se pode chegar um escritor, o de ser considerado o maior em sua língua, mas porque soube descrever os tipos mais rasteiros e vulgares encontrados nos maiores vultos sociais e também nos menores, com primor e argúcia. Alexandre Herculano foi grande porque descreveu o homem tal qual é e sempre será, permeado de conflitos e a se equilibrar numa luta inglória entre a aparência e a essência. É o que se vê em “Lendas e Narrativas”, “Eurico”, “O Bobo”, “A Harpa do Crente” e “O Monge de Cister”.
O leitor diante de tal descrição pode se enfadar e encerrar a leitura com a alegação de que esse escritor está perdido no tempo e que sua leitura não interessa a quem se acostumou às facilidades da escrita moderna. Santa ignorância. Herculano não só não está perdido no tempo, como sua leitura tem muito a contribuir com a capacidade de compreender, de pensar, de avaliar os seres e os fatos que, embora passados, são tão atuais quanto o jornal desta manhã (bela passagem do inesquecível The Ladykillers, de Ethan e Joel Cohen). Ao lembrar a aversão aos escritores antigos, aproveito para fazer uma pequena digressão e narrar dois fatos ocorridos em meus tempos de faculdade. Andava eu pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), numa fria tarde de agosto, com um belo exemplar de Fausto, de Goethe, traduzido por Castilho, quando encontrei um professor de Literatura do curso de Letras. Não contendo minha felicidade mostrei-lhe o presente que acabara de ganhar: - Veja, é um Fausto, traduzido por Castilho, recebi há pouco de presente.
Qual não foi a minha surpresa quando obtive como resposta um riso sarcástico e o seguinte dizer:
-Você ainda lê isso?! Meu Deus!
Não tive outra alternativa a não ser dizer “Sim, leio”, e me resignar à insignificância de ler Fausto, de Goethe, traduzido por Castilho. Confesso que me arrependi de não perguntar se a surpresa do professor se aplicava ao escrito de Goethe ou à tradução de Castilho. Talvez fosse melhor não saber.
Num outro dia, estava eu conversando com uma amiga, por MSN, quando quis-lhe mostrar um poema que havia acabado de ler. Era uma composição de Almeida Garrett e versava sobre alguém incapaz de corresponder a um amor. Achando curioso tal mote quis mostrá-lo, ao que fui impedida com o seguinte argumento: -Não, não me mostre esses autores difíceis!
Isso não me causaria surpresa se a pessoa em questão não fosse uma escritora, bem afamada na época por sinal. Pelo visto, temos professores e escritores que põem os escritores antigos (considerados obsoletos ou difíceis) na parte mais desprezada de sua estante, quando os possuem nela. Não há, pois, como não entender os jovens hoje estarem tão distantes deles.
É confortante saber que podemos nos consolar com Adler que diz em sua bela obra Como Ler Livros que “nos tempos modernos, sob a influência do estilo tipicamente jornalístico, a maioria dos autores assumiu a tendência de escrever parágrafos curtos e fáceis de ler”. Ou seja, diante do estilo jornalístico, só nos resta compreender (ainda que lamentando) o porquê de Alexandre Herculano, de Garrett e de Castilho estarem legados às traças. Isso não deixa de ser lastimável, porque se houvesse um pouco de paciência e método (e Adler está aí para auxiliar a quem precisa) se usufruiria o que há de melhor na elaboração e na expressão de idéias, tanto quanto se usufrui a leitura de bons escritores dos tempos modernos. Voltemos a Herculano.
Considerado o primeiro autor a cultivar o romance histórico em Portugal, Alexandre Herculano o fez com uma primazia tal que revelou seu estudo prévio e escrupuloso dos fatos, misturando-os a personagens fictícios que conduzem magistralmente o fio principal de sua narrativa. É o que, por exemplo, ocorre em O Bobo, romance que narra a luta entre o infante D. Afonso Henriques e sua mãe, D. Teresa:
Se D. Teresa se mostrara na viuvez digna politicamente do marido, o filho era digno de ambos. O tempo provou que os excedia em perseverança e audácia. A natureza dera-lhe as formas atléticas e o valor indomável de um desses heróis dos antigos romances de cavalaria, cujos dotes extraordinários os trovadores exageravam mais ou menos nas lendas e poemas, mas que eram copiados da existência real. Tal fora o Cid. Os amores adúlteros de D. Teresa com o Conde de Trava, Fernando Peres, fizeram com que cedo se manifestassem as aspirações do moço Afonso Henriques. (O Bobo, pag.8)
O melhor desse livro não está nas conturbadas relações entre mãe, filho e todos os demais que participam de sua intimidade, mas no bobo ou truão, personagem que deixa a todos atônitos quando aparece e que dá título à obra. A mestria de Herculano revela-se soberba ao falar desse personagem singular:
O leitor que não conhecesse por dentro e por fora, como se usa dizer, a vida da Idade Média, riria da pequice com que atribuímos valor político ao bobo do Conde de Portugal. Pois o caso não é de rir. Naquela época o cargo de truão correspondia até certo ponto ao dos censores da República Romana. Muitas paixões, sobre as quais a civilização estampou o ferrete de ignóbeis, ainda não eram hipócritas: porque a hipocrisia foi o magnífico resultado que a civilização tirou de sua sentença. Os ódios e as vinganças eram lealmente ferozes, a dissolução sincera, a tirania sem miséria. No século XVI Filipe II envenenava seu filho nas trevas de um calabouço: no princípio do XIII Sancho I de Portugal arrancando os olhos aos clérigos de Coimbra, que recusavam celebrar os ofícios divinos nas igrejas interditas, chamava para testemunhas daquele feito todos os parentes das vítimas. Filipe era um parricida polidamente covarde; Sancho um selvagem atrozmente vingativo. Entre os dous príncipes há quatro séculos nas distâncias do tempo e o infinito nas distâncias morais. [...] O novo bufão do Conde Henrique, ao começar os graves estudos e as dificultosas experiências de que carecia para preencher dignamente o seu cargo, teve a feliz inspiração de associar algumas doutrinas cavaleirosas com os mais prosaicos elementos da chocarrice fidalga. Na torrente dos desvarios, quando mais violento derramava em roda de si a lava ardente dos ditos insultuosos e cruéis, nunca dos lábios lhe saiu palavra que fosse despedaçar a alma de uma dama. Dom Bibas [o truão] debaixo da cruz da sua espada de lenho sentia bater um coração de português, português da boa raça dos godos. Suponde o mais humilde dos homens; suponde a mais nobre, a mais altiva mulher; que esse homem a salpique do lodo da injúria, e será tão infame e covarde como o poderoso entre os poderosos, que insultasse a donzela inocente e desvalida. E por quê? Porque um tal feito sai fora das raias da humanidade: não o praticam homens: não o julgam as leis: julga-o a consciência como um impossível moral, como um ato bestial e monstruoso. Para aquele que usa de semelhante feridade, nunca luziu, nunca luzirá no mundo um raio de poesia? E há aí alguém a quem não sorrisse uma vez, ao menos, esta filha do Céu? Dom Bibas não pensava nisso; mas sentia-o, tinha-o no sangue das veias. Daqui a sua influência; daqui o gasalhado, o carinho, o amor, com que donas e donzelas tratavam o pobre truão. Quando contra este indivíduo, fraco e ao mesmo tempo terror e flagelo dos fortes, se alevantava alguma grande cólera, alguma vingança implacável, ele tinha um asilo seguro onde iam quebrar em vão todas as tempestades: era o bastidor, à roda do qual as nobres damas daqueles tempos matavam as horas tediosas do dia, bordando na reforçada tela com fios de mil cores histórias de guerras ou folguedos de paz. Ali Dom Bibas agachado, enovelado, sumido, desafiava o seu furioso agressor, que muitas vezes saía malferido daquele combate desigual, em que o bobo se cobria das armas mais temidas de um nobre cavaleiro, a proteção das formosas. (O Bobo, pág. 21)
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Quinta onde Herculando passou seus últimos dias. |
É com esse estilo vigoroso e com uma linguagem considerada pura, que Herculano nos vai descrevendo a rotina bastarda de nobres, clero, burgueses, pessoas do povo, pessoas de uma época considerada passada, pelos anos, e presente, pela índole humana que jamais mudará enquanto a Terra for o que é. O que mais importa na leitura de seus textos não é, pois, conhecer o que já é de todos sabido, mas a forma como isso se manifesta. O bom escritor sobressai-se pelo primor de seu texto, revelado no colorido de sua linguagem, na unidade de suas passagens, na força de seus argumentos, no respeito à língua que o originou. Herculano, além de nos presentear com todos esses atributos, ainda nos deixa de legado um conteúdo histórico enredado de modo que nos faz recordar grandes obras cinematográficas. Ler Herculano é como estar diante de um grande filme romanesco. Suas descrições são roteiros seguros a quem se guia pela imaginação; elas nos fornecem os elementos necessários à visualização de imagens tão claras que nos vemos parte delas. Assim, a grandeza maior de seus escritos está em revelar ao espírito humano a construção que o permite alçar voos cada vez maiores. Voo que de certo alçou o espírito do próprio Herculano, quando num mês de setembro disse as últimas palavras de sua vida:
- Abram as janelas. Quero ver as árvores.
Referência
HERCULANO, Alexandre. O bobo. Ed. W.M.Jackson.